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sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Cheiro de Deus

Ela tem um jeito todo seu de me olhar nos olhos.  Ela é linda como lindas são as nuvens em tardes de verão.  Ela é doce tal qual o néctar roubado das tulipas do vizinho. Coisas saborosas que só criança sabe o gosto. Ela é a coisa mais perfeita que existe. Perfeita como uma boneca de porcelana chinesa. Meu Deus! Como ela é linda!

Outro dia ela me flagrou olhando para ela. Antes de ser pega eu a vislumbrei como se buscasse uma palavra para defini-la naquele instante. Tantas coisas se passaram em minha lembrança. Coisas que o vento da vida encarregou de armazenar nas frestas dessa minha memória cosmopolita. Enquanto ela escovava os cabelos ondulados e de tom acobreado, com o olhar submerso nos vãos dos galhos do  abacateiro, pensei que ela tivesse o poder de enxergar Jesus Cristo sentado à destra de Deus, naquele espaço diminuto de céu, que se revela quando o vento tira dos olhos dos anjos os galhos do abacateiro.

Ela, ali sentada naquele banco de madeira feito a grosso modo, com os pés calçados nas havaianas azuis – era a coisa mais linda do mundo! Ela, ali com as mãos cansadas da lida da casa segurava a escova de cabelos como se naquele momento pudesse, num toque mágico, transformar sua cabeleira em raízes.  Raízes do abacateiro, tão densas e sadias que até a décima geração poderia se alimentar dos frutos daquela árvore.

Mas, ela parecia não enxergar o abacateiro, seus olhos amendoados buscavam os pedacinhos de céu que os galhos da árvore insistem em esconder. Talvez ela pensasse que já estava na hora de podar aqueles galhos. “Quando começar o outono, os ventos fortes poderão derrubar esses galhos sobre o telhado e este não resistirá e ficará em fragmentos.” – Conjeturei que ela estivesse pensando nisso.

Contudo, ela não demonstrou preocupação com o telhado. Ela olhava mesmo era para Deus. O que será que Ele dizia a ela?  Por alguns instantes, ainda escovando levemente o longo cabelo e trazendo-o todo para o lado direito,  fechou os olhos e nesse instante eu pude olhar para suas mãos: pequenas, dedos finos e a unha por fazer... Desejei tocar em suas mãos, desejei cobri-las com as minhas para ouvir também o que Deus estava lhe dizendo.

Meu Deus, ela é tão linda! Ali, sentada como se fosse uma santa escovando os cabelos. De olhos fechados, cabeça erguida e ombros eretos, para auscultar a voz do Criador. Linda demais! Depois, ainda de olhos fechados, ela aspirou fundo o ar... e em seu aspirar era perceptível que Deus lhe presenteara com a fragrância dos céus.  Mais uma escovada nos cabelos, outro suspiro, e seus lábios revelaram um riso tímido solto pelo canto esquerdo da boca.

Não havia dúvida, ela estava ouvindo um coro celestial. Os anjos entoavam Salmos de Davi e os galhos do abacateiro agora tocavam harpa. Outra escovada nos cabelos... Devagar, com pequenas paradas entre um suposto nó e outro.

A escova agora fora colocada suavemente no banco e com as pontas dos dedos começou a fazer o trabalho que dantes era da escova, de olhos fechados, como se desejasse decorar a imagem que vislumbrara entre os galhos do abacateiro. Por Cristo!? O que será que Deus está dizendo a ela?

Num instante ela juntou os cabelos como se fosse amarrá-los com uma fita num penteado rabo-de-cavalo, mas não o fez. Moldou o cabelo agregando e enrolando os fios num elo feito com o dedo médio e depois passou a ponta por ele, dando um grande nó nas madeixas encaracoladas. Como se acostumado fosse, o nó não se desfez, pelo menos até ela abrir os olhos e me encarar na percepção de que eu a estava filmando com curiosidade.

- O que foi? – Perguntou-me, balançando a cabeça negativamente a fim de desmanchar o nó que havia dado no cabelo – Viu como o abacateiro está repleto de frutos? 

- Não, minha mãe, não pude reparar o abacateiro. Eu estava contemplando uma santa a escovar os cabelos. Santa! Eis a palavra equivalente e perfeita para defini-la, minha mãe!
Homenagem à minha mãe Diomira: seu nome significa no Grego “Cheiro de Deus” ou no Italiano  “Deus Procura.”


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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Jardim do Rey - homenagem póstuma ao poeta Reynaldo Jardim

“Se eu quiser falar com Deus, tenho que abaixar a crista, tenho que seguir à risca o que o Gil me ensinou. Tenho que aguardar na lista minha vez, minha audiência. Uma vaca de paciência, ruminando meus pecados. Quando chegar a minha vez, tenho que soltar o grito. Pois daqui ao infinito, Deus não vai me escutar. Ele está ficando surdo, já não enxerga direito, constrangido e contrafeito com o mundo que criou.

Antes de falar com Deus, eu arrumo um pistolão. Pode ser Antonio ou João, qualquer santo de prestígio. Tenho que levar presentes: minha alma, meu delírio, a luz acesa de um círio que Ele está na escuridão. Se eu quiser, mas não quero, que esse Deus é prepotente. Ele é onipresente, só não está onde eu estou. Se quiser falar comigo, não atendo ao celular. Não deixo a mesa do bar, que esse chope está demais. Eu só vou falar com Deus, quando Ele matar a fome dessa criança sem nome que não para de chorar. Quando ele descer do céu e ver que cada menino, sem presente, sem destino, precisa de um beijo seu”.

Desça já daí menino Rey, que esse povo é gente séria. Se você disser que é poeta, sei não, sei não menino. Vai mesmo fazer estripulias no céu? É bem a sua cara – ‘Lagartixa escorregante na parede de domingo’... Sei não menino... Olha que essa gente ralha e não há cristo rogando o suficiente nas ‘Sangradas Escrituras’ que dê jeito.

Tem jeito não, menino. Desça já daí. Eu já disse. Não quero nem pensar no falatório que há de ser, se ‘Cantares Prazeres’ aí nas alturas. Sabe, essa mania musical que você tem de falar da vida, do amor e de ‘Paixão Segundo Barrabas’? Menino, toma tipo! Crie um modo de tornar essa filósofa ‘Poesia Abstrata’ em vísceras ‘Moleculares’ – pra ver se tem perdão.

Desça Rey menino. Desça logo, porque você ainda não terminou seus projetos. Cadê a poesia concreta? A cidade ‘Futura’, ecológica e socialmente correta que você sonhara para os arredores de Pirinópolis? E esse bando de artistas que você disse que moraria lá... Pra onde é que esse povo vai agora?

Vê se desiste dessa ideia tosca de escrever nas nuvens, pois quem há de poetizar as páginas que me antecedem no Diário da Manhã sempre às segundas-feiras? E agora, quem acreditará em tudo que você escreveu sobre minhas crônicas?

Ô Rey, para com isso. Pois não foi você quem disse que o que gera o medo não são as pontes interrompidas sem qualquer aviso, mas a queda repentina do horizonte? Então, menino, desça já daí. Está certo que Manoel de Barros descobriu que a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso – mas não precisava, Rey. não precisava mesmo, ir pra lá agora.

Sei não, acho que você ficou de ponta cabeça... Vai mesmo construir poéticas prosas em terras celestiais? Sei não, Rey... Sei, não... Mas quando essa gente ler seus versos, decifrar seus traços e conhecer sua alma... sei não... mas acho que não deixarão você voltar.

Reynaldo Jardim deixou marcas em muitos... Deixou-as em mim também. O Rey vive para sempre!

"Reynaldo Jardim foi, e sempre será gênio criador, um artista revolucionário, alucinante: aquele que liderou e/ou influenciou os líderes das grandes revoluções artísticas do século 20, tanto na poesia, como, e principalmente, na imprensa brasileira" Alisson Sbrana.

Reynaldo Jardim (São Paulo, 13 de dezembro de 1926 — Brasília, 1º de fevereiro de 2011)1 foi um jornalista e poeta brasileiro.


(Publicado no Diário da Manhã - Goiânia Goiás em 07/02/2011)


" Clara Dawn: a jovialidade adulta de seu texto criativo revela uma escritora que causaria inveja a Clarice Lispector..." Reynaldo Jardim - Jornalista e poeta - publicado em 11/10/2010 no jornal Diário da Manhã.


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segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Grito da Macambira

Tinha cheiro de água adocicada, com uma pitadinha de sal. É! Tinha cheiro de soro fisiológico, mas no final, a fragância era de fruta verde: seriguela ou ingá, talvez jurubeba... era bem isso mesmo, jurubeba. Aquele cheiro de arroz com jurubeba borbulhando em água fervente se espalhava casa adentro. Depois saía pelos vãos da porta e também pelo escancarado da única janela do barracão de adobe. O fogão a lenha, pequeno e bem rebocado com barro branco, ostentava aquele lar. Nem todos tinham um fogão a lenha dentro de suas cozinhas. Era mesmo um belo e branco fogão, sob diminutos caldeirões de ferro: arroz com jurubeba, feijão novinho, novinho, abóbora com quiabo e uma bacia cheia de torresmos.

Num prato esmaltado, sobre a mesa feita com cipó, adormecia uma gema: a pedra mais rara e cara: Uma pedra de sal.

- Chegou ontem. Foi o Zé Messias que trouxe, junto com os outros. Saíram daqui há meses, e só voltaram ontem com o carro carregadinho de pedra-sal. Foi preciso pegar as pedras e abanar a poeira vermelha das estradas.

Zé Messias viaja léguas, todos os anos nas “águas grandes” dos rios. Ele, o Juvêncio e o Tião e mais outro tanto de homens, fazem atalhos por terra, com tropas de burros e carros de boi. E esse povo sofre: o carro de boi desmantela tudo na água, e eles precisam amarrar o saco de sal na cabeça ou no lombo dos burros, pra não deixar molhar, entende, doutor?

O sal pra chegar aqui, seu moço, dá uma trabalheira danada. O doutor não faz nem ideia. Ainda mais o senhor, com essa fala macia e cheia do português correto... O moço com essas botas de couro e esse paletó de casimira... É casimira?

O doutor não é muito de prosa, né? Fica aí parado, de frente à janela, olhando a braquiária. Tá vigiando o cavalo? Preocupa não, pode deixar o bicho pastar tranquilo, porque não tem ladrão aqui no morro. Nós, seu moço, trabalhamos pra viver. Aqui só tem carreiro, porqueiro e peão...

Gente feliz é aquela que vive ao longo dos rios e das estradas... É! Aquelas comunidades vivem na abastança, porque têm muito sal pra vender para as gentes que passam por ali.

Por que o senhor não senta um mucadinho? Vou lhe servir um prato de comida. O senhor parece preocupado. Senta e come! Se quiser pode levar um pouco para a viagem, depois eu faço mais. Senta, senta...!

Então seu moço, como eu dizia, nós aqui na Macambira, viemos de Minas Gerais e abrimos, com muita fortaleza e perseverança, as fronteiras desse mundão desconhecido, na rota da nossa precisão, pra que nossos filhos tenham um punhado de sal na sua comida. Mas, não se faça de rogado, se farte, porque graças a Deus, o Zé Messias chegou a tempo. Ontem mesmo eu presenteei o Nogueira com uma pedra, das grandes, de sal, era a última que eu tinha, mas eu vi que o Nogueira ia me pedir emprestado, então eu tratei de dar logo a ele a pedra. Como o doutor sabe, emprestar sal é sete anos de azar.

Toma uma caneca de café, eu acabei de passar... Fica um pouco mais, o senhor ainda não me disse o seu nome... O senhor é tão calado, parece que carrega todas as pedras de sal do mundo nas costas...

- Pedro. Meu nome é Pedro Ludovico e sobre a sua história e suas pedras edificarei uma capital...
- Eita, que esse Pedro é um cabra bão... bão demais da conta, sô! Agora sai de perto dessa janela e toma mais um cafezinho, que a história só está começando...


Crônica sobre a suposta dúvida de Pedro Ludovico Teixeira, sobre onde seria a capital de Goiás.
Publicada no Diário da Manhã - DM Revista - pg 06 - Segunda, 19/04/2010
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