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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Um mar inteiro para Gala e, para mim, um ribeirão?

Tá sentindo esse cheiro de terra molhada? Sou eu. Sou feito chuva mansa que não levanta poeira alguma. Sou água de riacho raso, onde se pode contar pedrinhas. Flutuo sobre o solo sem jamais tocá-lo completamente, porque levo comigo apenas os sonhos. Sou a ressonância humana da sua janela, Dalí.

Sou  a parte fraca de seu ego inflado, sou o tom metálico e cinza das nuances de seus bigodes. Sou o caminho pedonal que lhe chama à realidade. Mas a realidade não lhe representa coisa alguma... E nem a mim, oh, céus! Através de seu pincel honestamente possível, você me mostrou que não há nada mais surreal do que a realidade... e eu acreditei, mas só por algum tempo. Pois o que para você é fato, para mim não passa de especulação artística.

Ei, Salvador, o que foi que lhe aconteceu? Será que não se lembra mais de nós dois? Nós nadávamos no riacho e você me desenhava com carvão. Depois papai fazia festa de família, só para mostrar a todos os seus desenhos... Você se lembra? Não, você se esqueceu. Já não se lembra mais de mim? Eu era a menina dos seus olhos... Sua musa singular... Não se lembra?  Que inferno! Valha-me Deus!

Lorcas e Gala; Gala e Descartes; Picasso e Gala; Gala e Gerrit; Rinocerontes e Gala; Gala e Freud; Diego Velázquez e Gala; Gala e os elefantes... Um mar inteiro para Gala apreciar... E para mim? Um ribeirão.  Gala, Gala, Gala... Maldito seja o ventre  que gerou a Gala.
Gala. Com qual interesse ela lhe suporta? Financeiro, suponho. Sim, pois não é fácil conviver com  todas as suas fobias aos insetos...  Oh, o grande Dalí não suporta gafanhotos! Além disso, você é um franquista amante do dinheiro...E também é um aparelho digestivo... Sim, você é um aparelho digestivo... Se ao menos você viesse me ver por um único dia apenas... Eu poderia posar para você... Na varanda ou, como antes, numa janela.

Quem sabe, no dia da inauguração do museu que fizeram para você aqui em Figueres. Uma sepultura: um incomparável centro de cretinização. Quadros com títulos errados, visitantes em busca de explicações, inquiridores que nunca investigam coisa alguma, psicanalistas que examinarão se você é mais louco do que qualquer outro louco que já existiu.

Mas como você mesmo diz, a cretinização é o alimento generoso dos idiotas. No entanto, meu irmão, esse tipo de idiota não é daqueles que lhe causam paixão: idiotas reais, o gelatinoso, o pleno revoltante, completamente retardado, de lodo e saliva. São idiotas por nunca se fartarem da ganância de Dalí... Será que...?

Será que Gala sabe que você disse que se ela morrer você gostaria de comê-la? Que, morta, ela se encolheria tal qual uma azeitona e você a devoraria, porque acha que o canibalismo é a maior manifestação da ternura...? Será que ela sabe disso? Fique certo de que eu escreverei um livro para contar isso a ela. Aguarde e verá nas prateleiras: "Dalí visto por sua irmã"! Nesse dia, enfim, levantarei poeira.



(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 17 de fevereiro de 2013).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma cozinha para Mario Quintana ou A estrela que não queria brilhar

        
Tem até uma cozinha – ele afirmou e eu retruquei – e uma sacada. Mario debruçou no parapeito da janela para vislumbrar, até onde seus olhos alcançavam, o Centro Histórico de Porto Alegre. Depois fixou o olhar em uma diminuta mancha escura na ponta dos dedos que tesouravam um cigarro, deu um generoso trago aspirando a fumaça para os pulmões e lentamente a expirou, ainda olhando para os dedos: – Se vai continuar fotografando a minha vida, é preciso saber que eu não estava infeliz naquele quartinho. Porque, na verdade, eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas.

            – Mario, se você mora dentro de si mesmo, onde vai receber as visitas? –, perguntei sorrindo e lhe mostrando a cadeira thonet. – Visitas? –, indagou, fatigado, enquanto caminhava com o apoio de uma bengala. – Rubem Braga, Augusto Meyer, Manuel Bandeira... - Para que tudo isso? Um velho não pode só ficar em paz? –, falou, a grosso modo, acendendo outro cigarro. – Ora, Mario, onde já se viu uma estrela  não querer brilhar, se a existência de uma estrela é brilhar?... Fitei-o por alguns segundos esperando uma reação, uma resposta ou até mesmo uma bronca, mas ele parecia não querer outra coisa a não ser divagar com os olhos e jamais com a boca... Esperei, esperei... e ele apenas divagava com a sutileza de alguém que sabe existir, mas não sabe que sabe.

Depois perturbei a sua plenitude existencial como se fosse uma mosca que acabara de pousar em seu nariz no momento em que lia “À la recherche du temps perdu"  – O que acha de contar-me um pouco mais de sua vida? Se quiser falar em francês, vou gostar muito de ouvi-lo. Por que mesmo que você não aceitou se candidatar à Academia Brasileira de Letras, sabendo de antemão que seria eleito? Ah, meu velho, fale! Temos muito tempo até o lançamento de 80 Anos de Poesia e acho que já fotografei tudo que tinha para fotografar...

            Tudo, até olhar para ele e me deparar com um quadro pitoresco! Mario, ali, sentado naquela thonet com seu corpo ereto, apoiando as mãos na bengala, vestido de um paletó cinza de linho, calça preta, camisa azul, um lenço branco na lapela e a expressão facial mais gentil e pura que eu já fotografara desde sempre. Atrás dele, uma estante rústica feita de peroba rosa. A estante estava vazia e... oh, céus, por que? Porque Quintana morava dentro de si. E foi dentro de si que passou toda a sua vida. Dividindo-a apenas com os seus sonhos. Não teve esposa e nenhum filho para herdar-lhe o nome.


            Toda a sua existência dita, naquele instante, nas divagações de seu olhar. E aquela foi a fotografia mais linda que eu fiz em toda a minha vida! 

(PS: Segundo Mario, em entrevista dada a Edla Van Steen em 1979, seu nome foi registrado sem acento. Assim ele o usou por toda a vida).

Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 03 de fevereiro de 2014.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O voo quebrado de Florbela Espanca

Naquele dia, eu percebi que ela não estava muito bem. Titubeava uma certa gagueira no olhar todas as vezes que alguém lhe perguntava sobre quando sairia a publicação do Livro de Sóror Saudade. – Logo! –, ela dizia, dando a entender que não queria falar sobre o assunto naquele instante.

Ora, éramos amigas desde a infância e eu só estava ali porque a sua última carta realmente me preocupou. Contou-me que o casamento com Antônio Guimarães não estava nada bem e ela pensava em pedir a carta de desquite. Ela havia escrito o poema "Prince charmant", e o dedicara ao jornalista Raul Proença. O marido não havia gostado disso. Além disso, estava mais enciumado ainda por ela ter que dar aulas particulares de português e assim sair de casa sozinha.

Ali do seu lado, tentei conduzi-la à razão e, honestamente, pensei que conseguira. Pois logo que Fernando Pessoa chegou e segurou suas frágeis mãos dizendo: “alma sonhadora/ Irmã gêmea da minha!”, ela esboçou um riso quase infante e passou andar pelo salão como se seus pés não alcançassem o chão. E eu, que estava distraída e encantada com o seu flutuar, esbarrei em Manuel da Fonseca, que também parecia imerso na existência da poetisa. Ele se mirou a minha pessoa, mas só para dizer: “e lá se vai Florbela, de negro, esguia, seus longos braços se abrem esbanjando braçadas, cheios da grande vida que ela tem”...

Logo pensei que as preocupações de Flor eram irrelevantes, pois como pode ser tão amada e infeliz? Depois daquele dia, tive que deixá-la por um longo período. Meu pai estava muito enfermo e por isso tive que ir para Lisboa, deixando Florbela aos cuidados de seus próprios pensamentos. Continuamos nos correspondendo por cartas e nelas contou-me que se separou de Antônio e já estava enamorada pelo médico Mário Pereira e que fora com ele viver. Ele era um bom homem e permitia que ela escrevesse para o jornal - D. Nuno de Vila Viçosa.  Pouco tempo depois, recebi uma carta do próprio Mário, dizendo que Flor havia tentado o suicídio. Que ela não estava bem. Suas antigas neuroses por causa de um aborto involuntário se instalaram com grande força. Como se isso não bastasse, Apeles Espanca, seu irmão, morrera em um acidente aéreo.

Não tive escolha, voltei para Vila Viçosa, no Alentejo, para cuidar de minha amiga e nos últimos três anos fiquei por perto. Mas ela jamais se recuperou. Sua vida pairava num limbo de tristezas, das neuroses afetivas, das dores físicas e emocionais. Assim, ela se decidiu: na véspera da publicação de Charneca em Flor, Flor se despetalou. E pétalas tantas espalhou mundo adentro: “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 27 de janeiro de 2014).


segunda-feira, 29 de abril de 2013

A felicidade está agachada atrás da porta


Permaneceu estático, sem sorver a sopa que transbordava da colher, sem vontade de erguer a vista, sem querer quebrar o encanto do rancor que escorria lodoso em forma de suor por aquele rosto carcomido pelo cansaço. O ar da casa estava rarefeito devido à essência de lavanda que existia em tudo se movia ali.  Tinha pensado que seu rancor pudesse ser por causa disso, mas qual?, a alfazema sempre, sempre esteve entre eles, e houve um tempo em que ele gostara muito.

Mas, naquele dia, ele estava com a sensação fascinante de que habitava um corpo que não era o seu e sim o de outro, que permanecia sentado e frouxo enquanto tudo o que devia fazer para impor  respeito era esbravejar palavras de efeito moral nada indulgentes àquela que ele deixara de admirar havia anos. Casamento. Como alguém poderia crer que isso daria certo? Duas pessoas distintas que não se conhecem, não possuem parentela, nasceram e cresceram em regiões diferentes, se formaram em culturas e crenças diferentes, até os sexos são diferentes...  Poderiam, oh, céus!, essas duas pessoas conviver ‘para todo o sempre’ na mesma casa, dormindo na mesma cama, compartilhando o mesmo banheiro... Para-todo-o-sempre-amém!?

Na verdade, ele sentia-se lanhado pelos primeiros arranhões da morte e acabara de perceber que já estava na hora de se despedir da pedrinha que ele chutara, a vida inteira,  até chegar à porta de casa. Anos e anos chutando aquela pedra – pra lá e pra cá - era uma distração oxidante e enfadonha da rotina, mas que o iludira quanto ao acúmulo de vincos na face.  Não é verdade que  ele está à beira da morte, mas  se sentia assim. Costumava irritar-se com qualquer coisa que não estivesse acordada com seus pensamentos e ações; costumava arrastar os chinelos sob os pés enquanto ia e vinha do quarto para a sala; costumava ficar em silencio absoluto enquanto ouvia “Aída” de Verdi operando um fundo musical drástico ao marasmo de sua existência - depois chorava como se comovido estivesse – mas a comoção limitava-se à ópera. À ópera apenas.

Desde a infância ouvira o seu pai dizer que a felicidade estava agachada atrás da porta e que se ele fizesse diatribes, ela, a felicidade, jamais saltaria à sua frente. Por Cristo! É bem verdade que o seu pai sabia que ele, porque isso era latente, seria um orador impulsivo, desordeiro, febril  e discursaria, sem pestanejar - clausuras pétreas e - que diabos!, por que não? Senão a felicidade jamais saltaria à sua frente no instante em que ele abrisse a porta.

Abriu, na verdade, muitas portas e não foram poucas as vezes em que ele se viu abrindo e fechando a porta rapidamente com o intuito de ver a felicidade saltando à sua frente. Disso ele achava graça, mas nunca respondia a quem fosse perguntar o motivo do riso. Ah, isso ele não respondia mesmo, mas dizia a si mesmo que devia elaborar discursos mais amenos. Que devia ser mais tolerante, menos intransigente... mais isso, menos aquilo...

Naquele instante em que a sopa jazia morna sobre a mesa; em que a sua senhora lustrava um pouco mais, com unguento de lavanda, o piso de madeira;  naquele momento em que toda a sua vida discursava inutilmente em seus ouvidos, ele pensou que já estava na hora de esquecer o saber utópico da felicidade e abrir de uma vez por todas, a porta derradeira. Sem titubear, sem esperar coisa alguma, sem medo do vazio, sem lamentar o que foi dito, sem buscar compensações, porque não há mais compensações a serem buscadas... sem mais nem menos... Abriria enfim a porta para defrontar não com a felicidade, mas com a silenciosa e confortável morte... Todavia, ele não precisou se levantar da mesa para abrir  porta alguma. A principal delas, a da “serventia da casa”,  é que se abriu e por detrás dela, aos pulos,  saltou para os seus braços a  neta caçula.  A última das muitas felicidades que se revelaram porta adentro ao longo de sua vida e ele nem se deu conta disso, mas para-todo-o-sempre-amém, ele imaginou que suas diatribes moldaram a  felicidade numa felicidade muda e ápode. 

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 29/04/2013)

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Homem do Interior

Ele chegou no trem das dezoito horas e seis minutos. Ele chegou no trem das dezoito e bagunçou a minha cabeça. O trem é uma invenção fantástica, sem dúvida. Pensei, uma invenção para portar o lugar dantes ocupado por bestas-feras, mas não importa o quanto as máquinas evoluam serão sempre conduzidas por bestas-feras.

O comboio que trazia o homem vinha de um interior longínquo apareceu pouco depois do relógio marcar dezoito horas. Chegou com fragor, abalando as minhas estruturas, ameaçando arrebatar-me feito um tufão e conduzir-me por entre fabulas cosmopolitas e, assim, transformaria a minha vida num conto de fadas... O comboio? Não, o homem do interior.

Trilaram mais dois apitos e no posto do agulheiro um sinal carmesim substitui o branco. O maquinista apitou mais um sino prolongado, abriu o regulador que desligara a máquina e ela deslizou em freios engolfando a inércia na estação. Depois disso, ei-lo vindo pela passagem de nível postando-se à cancela aberta... Meu Deus, isso foi há tanto tempo! Mas, não faz tempo algum.

Às vezes, eu pensava em como ele seria. Às vezes, ele pensava em como eu seria e, às vezes, a gente pensava como seríamos juntos e, sem saber, nos relacionávamos mutuamente. A gente não se conhecia mas havia amor e eu soube quem ele é no momento que olhei para ele. Ele também soube quem eu sou quando seus olhos acostumados com a imaginação de mim, tão somente me vislumbraram.

O homem do interior vinha em minha direção e eu jamais precisaria sua personalidade. Será ele um daqueles modelos de corpo atlético e faces cheirosas? Tateei-o em meus pensamentos, cada centímetro sem pestanejar. Será ele um músico em ascensão? Estalei os dedos almejando o dedilhar de um belo instrumento.

Será ele um poeta? Molhei a ponta do dedo na língua com vontade de folhear o próprio autor. Será ele, por Deus, carente, tímido ou debochado e sedutor? Inteligente e atrapalhado ou presunçoso e egoísta? Ou ainda, será que ele escolheu viver para ser apenas o homem do interior. Assim, em sua razão, de ser tão somente o homem do interior?

Que tolo é esse homem que veio do interior, para invadir a minha vida pensando que sou uma perfeição. E, imaginar que já estamos juntos há tanto tempoe que tudo que vivenciamos esses anos todos foi quase surreal. Mas tudo bem, pois o real é apenas mito.

Ah! Eu não sabia que o homem do interior, ali na estação, ao desembarcar com toda aquela bagagem pesada transformaria a minha existência de simétricas cores numa musicalidade agogô e ainda assim, acreditar-me-ia ser uma santidade.

A culpa não é sua, homem. A culpa é de Deus que deu-me esse rosto confiável sabendo de antemão que eu não lhe faria justiça. Culpa de Deus que me deu beleza sabendo-me tantas feiuras; que deu-me inteligência sabendo que eu faria tolices aos montes.

A culpa é de Deus que me deu um corpo vazio. Tão vazio que precisa de um homem para habitar em seu interior e esse homem, por não saber direito quem é, se faz de santo. Mas, eu não sou santo, homem! Se santo eu fosse faria um milagre: o afastaria de mim para que nessa romântica e insuportável simbiose, eu pudesse deixar de ser, como tantos, areias de deserto a esperar tempestades: sedento corpo... sedento de espírito... Por fim, eu, sem o homem do interior seria, tão somente e sem hipocrisia, a besta-fera a carregar pálios.
(Crônica publicada no Diário da Manhã - Goiânia - Goiás - DM - Revista dia 10/01/2011)
(Fonte da imagens: Marketing Sensorial)
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O Chaplinesco

Perto, muito perto, onde toda tristeza do mundo se esconde há um vilarejo em ruínas. Eu não diria para os moradores daquele lugar que não foi bem assim que vislumbrei a cidade: em ruínas.

Fiz esforços para esquecer o tal lugarejo, mas ele não sai da minha cabeça. Lembro-me bem, como se tivesse acabado de chegar ali, do toque do sino anunciando que uma fornada de pão francês acabara de sair na Padaria Central. Nem precisava, pois o cheiro de pão quentinho invadira a cidade perfumando-a com seu levedo farináceo, anunciando gostosamente a sua chegada.

Lembro-me que acabara de chover. O asfalto estava luminoso e as diminutas cachoeiras urbanas levavam o lixo da vila esgoto adentro e rio afora, numa simetria lenta, como se as coisas que pessoa alguma quis fosse tudo que realmente desejasse ficar ali...

No vilarejo em ruínas sempre chove. Até quando há sol ensoalha chuva. Quanto ao ‘sempre chove’, não posso precisar, mas naquele dia, eu vi o sol chover...

Depois de tocar para anunciar o pão o sino anunciou a hora da missa e os fiéis rumaram para a igreja calçados com botas de borracha à "chaplinescar" com lerdeza seus guarda-chuvas: confirmação de “sempre chove”?
Não sei. É estranho!

Curiosa, fui a Catedral. Uma réplica barroca da igreja parisiense do Val-de-Grâce, com todos os elementos clássicos e renascentistas possíveis em seus retângulos harmoniosos. Pude, e isso era inevitável, contemplar na majestosa estrutura a libertação da antítese entre espaço interior e exterior. O que significou a mim naquele instante a percepção de um estado psicológico da atitude criativa liberta de preconceitos intelectuais e formais; separação da realidade artística do maneirismo.
Pensei: "Paradoxal". Afinal as pessoas daquele lugar eram substancialmente maneiristas.

Os ritos da Igreja prosseguiram por meio de palavras mediadoras entre a gente do vilarejo e Deus. O padre rezava o fluir dos olhos chuvosos da vila. Não era dois de novembro, mas os fiéis estavam de luto. Seria porque sempre chove?

O homem sentado na calçada mendigava o salário dos "justos". E ele não usava botas de borracha e tampouco possuía um guarda-chuva. Mas gritava:

- “O homem é um animal com instintos primários de sobrevivência. Por isso, seus engenhos desenvolvem-se primeiro e a alma depois, porque o progresso da ciência está mais adiantado que seu comportamento ético.”

Eu ri. O homem não precisava de guarda-chuva para “chaplinescar”.

Nem de longe, e isso eu jamais poderia deixar de falar, que as ruínas da vila não estavam em suas casas e nem na arquitetura da cidade, pelo contrário... Perto, muito perto de onde toda tristeza do mundo se esconde, existe um vilarejo cuja estrutura urbanística é a mais perfeita que já vi em toda minha vida.

- Está sem as botas e o guarda-chuva. Quando a tempestade chegar, a senhora ficará toda encharcada. Disse-me o fraseador de Chaplin.

- Eu me encharcar? Não, não... eu não sou do vilarejo.

Respondi ao poeta das calçadas e parti sem olhar para trás.

(publicada no Diário da Manhã - DM-Revista - Goiânia - Goiás - em 18/10/2010)
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sofia Búlgara e o Tabuleiro da Morte

Tudo ali caminhava de um jeito concêntrico. Havia tantas mortes que não se contava mais os habitantes, e sim os sobreviventes. A vida estava mesmo moribunda lá por aquelas bandas da Bulgária.
Se por um lado as mortes entraram em ebulição, por outro, evoluíam-se as justificativas. A terceira morte que se justifica pela segunda que se explica nas razões da primeira e assim, sucessivamente. Não tinha mais o que fazer, a não ser esperar que o círculo se fechasse restando o único vencedor.
Vencedor? Isso era uma coisa difícil demais para definir por aquelas bandas. Interessava o resultado final do jogo, quem sobreviveria ou quem terminaria na pior. O que importava era tão somente que o jogo chegasse ao seu fim revelando o maioral. Um jogo... Era o prisma! A vida daquele lado da Bulgária era vivenciada em fases com o destino em game over.
Restaram no tabuleiro da morte poucos sobreviventes. Os maiores, os grandes, os ilustres... Restaram estes por suas influentes estratégias. Porque essa era a hierarquia da morte. Mas as mortes estavam só começando por aquelas bandas Búlgaras, e acabaria apenas quando as justificativas terminassem, e isso era a coisa que mais evoluía por ali. Haveria sempre um motivo para matar aquele que tinha matado o outro.
O tempo avançava levando em seus chinelos a ânsia pelo fim. Quando e como as mortes terminariam? Quanto mais teriam que esperar até que surgisse um alguém capaz de resolver aquela situação contingente?
Enquanto as mortes atingiam a zona rural, vitimando alguns peões e seus cavalos, poucos deram atenção. Mas depois que começaram a destruir as torres das igrejas e matar seus bispos, aí a coisa toda começou a ferver.
Foi assim que oficializaram Sofia como a cidade, 11 de maio de 2010 como dia em que todos os interessados se reuniriam com o intuito de encontrar o proeminente matador... É claro que logo chegariam à conclusão que não importa quem começou a guerra, mas quem será o mártir da paz. Ora essa! Pessoa alguma em Sofia Búlgara parecia interessada na paz. Eles queriam mesmo era ver a cobra fumar. Estavam tão obcecados pela morte que seus olhos brilhavam a cada vítima que se despencava ao fim.
O dia oficial ficará para a história, como o dia em que povos se dividiram em façanhas mortais, onde apenas um sairia ileso. O que aquela gente jamais conceberia era que alguém na iminência da derrota, colocasse fim às mortes, simplesmente desistindo de lutar.
Fora um dia incrivelmente fabuloso, onde nem mesmo as crianças escaparam do duelo. Visão clara para uns e negra para outros. O fator sorte inexistia e os comensais da morte apostavam na lógica e na tática. Indubitavelmente venceria o melhor. Depois de doze exaustivas horas, uma voz solitária ecoou pelo ambiente como se fosse o sibilar de uma cobra. Seria mesmo o fim? Apenas um se tornara o rei?
De repente a voz do enxadrista Anand, depois de eliminar o búlgaro Veselin, bradou em alto e ondulante sotaque híndi:
- מט, checkmate - cheque-mate...
(Publicada no Jornal Diário da Manhã - Goiânia - Goiás em 02/08/2010)
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segunda-feira, 10 de maio de 2010

Reminiscência

Aquele móvel imenso no centro da sala era motivo de discórdias. Um móvel tão grande e inútil bem no centro da sala. Inúmeras tentativas foram realizadas para retirá-lo dali. Mas foram em vão, pois o móvel não coube em canto algum da casa.

Aquele colosso coberto pelo pó grudento dos caminhos negros da vida urbana. Não passava de um infrutífero móvel embalado por sua morte reminiscente...

O piano da Nona. O estéril piano da Nona. O piano em que a Nona tocava Chopin. O piano de cauda, que a Nona tocava Orchestra in E Minor em noites pagãs, aromatizadas com Cabernet Sauvignon da safra francesa de 1910.

Em tempos em que a coisa mais importante da vida era reunir muitos em volta da mesa farta. E quando a Nona se preocupava apenas em ser a mãe de seus filhos, a mulher de seu marido e aquela que sabia tocar Chopin no piano que herdou de seu pai.

Nona não toca mais Chopin, seus dedos retesados não tamborilam tecla alguma e seu piano não passa de um móvel grande e imprestável no centro da sala de um de seus bisnetos.
Outros dedos não ousam tocar aquele piano que sustenizava a vida de Nona e de seus comensais.
Eis ali... O piano da Nona, com sua enorme cauda e seus 620 kg., na tentativa de enobrecer a sala em resgate da nostalgia das noites inebriantes, onde Nona era tão somente a mãe zelosa que tocava pedais: os pedais de Chopin... Pobres pedais, pobre piano, pobre tentativa...Pobre! Pobre, pobre ambiente.

A vida anda muito depressa agora Nona, as mães continuam zelosas, mas os seus afagos são virtuais... O bolo Nona, aquele gostoso de fubá com erva-doce, não precisa mais bater as claras para tirar o cheiro de ovos. Já vem pronto. As mães só precisam verificar a data de validade.

A música? Você tem que saber Nona, ninguém mais precisa tocar. Chopin, Liszt, Bach e Mozart, agora são orquestrados por um aparelhinho de uns cinco centímetros que chamamos de Pen Drive.

Espere um pouco que vou colocar para a senhora ouvir... Ouça, é a sua música favorita: Orchestra in E Minor de Chopin... Não é perfeito, Nona? O único trabalho é conectar o Pen Drive no Home Theater para ouvir mais de mil sinfonias... sem esforço e baixo custo. É prático. É simples assim!

Falando em praticidade Nona, o que a senhora acha de colocarmos o piano no porão? Podemos ouvir Chopin no Home Theater…

Ei, Nona, espere... aonde vai?

- Para o porão, também me sinto um móvel grande e inútil no centro da sala.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Conto: Inevitável Vinco

As águas que se passaram moveram outra vez o velho moinho, que também já tinha passado desta para uma pior. Enquanto o vento regurgitava os restos mortais do pobre, a chuva enchia seu reservatório com as águas turvas daquela cloaca lamacenta onde os patos lavam seus pés antes do almoço.

O mesmo vento sacudiu os galhos do pau-terra e neste sofreguidão suas flores exalaram um cheiro exótico que se misturara ao perfume das polianas do cerrado. Era novembro, e chovia! E a chuva não apagara o brilho dos raios solares, mas pessoa alguma ali, usufruía desta singular imagem. Um casebre de pau-a-pique e alguns lençóis de algodão-cru pendurados na cerca feita com arames farpados, dão ao ambiente um aspecto tenebroso.

Cenário decrépito! Cenário decrépito, embaçando o dia e desertificando o cerrado. No casebre, um senil tocava sua também decrépita rabeca. Seus dedos oxidáveis arriscam tocar: “Ave Maria” de Bach. Como ousa? Ganhou cordas novas, não o velho, mas a rabeca. Agora estava tinindo, e certamente Sebastian Bach gostaria de ouvi-la rezar suas composições. A música enche o casebre de majestade. O homem parece imune a devassidão de sua vida e demonstra não precisar de coisa alguma além de sua rabeca que toca aquelas notas sem ao menos saber quem as compôs. Não importa. Isto realmente não importa. Ele chora, mas não de tristeza, chora de saudade. Saudade dos sonhos que não se realizaram, mas que lhe davam motivos para acordar todos os dias.

Sobre a mesa jaz um vidro, desses de compota, cheio de sementes de girassóis. Antigamente cultivava um canteiro destas flores no fundo do quintal. Os filhos se foram e levaram às flores, os netos se foram e levaram os caules. As raízes apodreceram e a terra as digeriu.

O homem tocava sua rabeca de olhos fechados, era bonito de se ver. Era a coisa mais linda que olhos podem enxergar, quando busca ver além do que está a mostra. Era a melodia mais sublime que ouvidos podem ouvir, quando estão atentos a pureza do som. Aquele rosto refletia as marcas do tempo e eram nítidas as suas rugas. Seu olhar embaçado pela nevoa cronológica, insinuava de modo acurado sua frágil vontade de viver.

Chama a atenção... não as rugas, uma pequena cicatriz do lado superior esquerdo de seu cenho franzido. Uma cicatriz quase imperceptível, uma cicatriz confusa, em sua ânsia de ser apenas cicatriz e não um inevitável vinco. O homem carrega em sua face um labor inconfundível, extirpado pelas raízes enquanto toca sua rabeca e chora.

A cicatriz lamenta sua “desexistencial” importância. Mas, houve um dia, em que ela vivenciara o afã de seus melhores momentos. Dias estes em que lhe davam deferência. Dias em que ela era tocada e comentada por vezes e vezes. Dias em que ela fora mais que uma distante lembrança, era o próprio momento em si. Não interessa mais o porquê de sua existência. Se ela apareceu durante a lida do “pão nosso de cada dia”, ou no instante em que o homem colhia seus girassóis. Não importa as cicatrizes, uma vez que se possui rugas.

O homem parou de tocar, caminhou até a mesa e pegou o frasco de vidro e retirou-lhe a tampa, derramando sobre a mesa algumas sementes. Selecionou-as, reservando na mão esquerda as mais graúdas. Depois caminhou na direção de seu antigo canteiro e atirou-as ao léu. Algumas caíram aos seus pés, outras o vento levou para algum lugar e talvez uma ou duas, caíram exatamente onde ele conjeturava que caísse.

Conquanto, o velho morrerá e suas rugas morrerão com ele, mas as suas cicatrizes hão de perdurar naquelas sementes de girassóis e tudo quanto elas representam também.
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