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segunda-feira, 16 de março de 2015

Um dia nunca morre

Foi numa esplêndida manhã de sol que a minha alma, vendo o meu corpo estagnado e apático, em sua razão de ser apenas corpo, disse-lhe:
Corpo, por que chora? Vem dançar. Não vê?, há um alvoroço na figueira – pássaros-pretos promovem um  sonoro caos a partir de um silvo. E que belo silvo é. Não escuta? Sei que deve estar pensando que o sol não tem valor. É mesmo um ordinário, como pode nascer para todos?
Mas, querido corpo, ser suscetível às desordens da existência  não é vantajoso e nem elegante. Vamos correr por aí. Antes podemos passar na varanda – tem um prato cheinho de acerolas robusta sobre a mesa. Mas se não quiser fruta, faço-lhe uma sopa. Ou um escaldado grosso com ovos e pimenta; levanta até defunto. Não crê? – Não crê. Que pena.
Tenha pena quando você não crê em coisa alguma e vem me dizer que o céu azul, o sol vibrante, a chuva, o escuro… são ilusões. Modo de ver. Sim. Eu concordo, porque não importa sé é só nuvens escuras que você vê lá em cima: o sol brilha incansavelmente e não está nenhum pouco interessado se você geme ou sorri. É o sol sendo o sol – simples assim.  Mas então você me diz que hoje só o sossego lhe acomete e que não se incomoda em ser deselegante ao desprezar o belo que há na Terra. Diz que até amaria a vida se uma vida tivesse; que tem agonias e que está exausto de sofrer…Por Cristo, como é triste ouvir isso de você.
Venha corpo, coloca a sua mão no meu ombro e deixa eu conduzir a dança. É verdade que eles estão mais para escOmbros do que muralhas, mas a velhice da alma também é ilusão. Não ligue. O espirito, o que jaz perfeito para sempre, é incorruptível: como aquela coisa estranha, incômoda e indolor que sentimos depois de ficar muito tempo numa mesma posição. Pensei nisso uma vez, enquanto fazia um enxerto ósseo nos incisivos superiores. No momento em que a mão do dentista segurava aquela terrível furadeira numa interminável escavação  eu pensava mesmo no meu espirito que naquele instante não sentia coisa alguma: medo, dor, aflição, desespero, vontade de dar uns petelecos no cirurgião e sair correndo e gritando como fiz quando era criança. (Minha mãe conseguiu me agarrar do outro lado da rua. Talvez ela desminta isso, porque não tenho certeza se de fato aconteceu ou foi só a minha vontade de fazê-lo. Uma coisa eu tenho certeza: o espirito é doidivanas – tá nem aí pras dores do corpo).
Foi naquele momento, na cadeira do dentista, que eu descobri, corpo, um emplastro capaz de sanar todas as  suas dores. Verdade. Se Brás Cubas, (o de Machado de Assis) que tanto procurou por isso, estivesse vivo, eu contaria pra ele. Juro. Mas qual?, o pobre já nasceu defunto. Que sina!
Foi inspirada em Brás Cubas que passei a dialogar com meu “eu” interior e ele disse-me que o passado e o futuro  têm pouca importância, comparado com o que há em nosso dormente espírito. Todo ser que respira tem um espirito acordado com a sua própria evolução.  E ele é apenas aquilo que deve ser.  Uma flor, por exemplo, é uma flor sem ao menos saber-se flor cheirosa ou não. Só o homem convive com o drama, desde sempre, de  preencher seus vazios e curar suas dores como se elas pertencessem ao espírito. Ora, este jamais está vazio, tampouco se transborda de quaisquer sentimentos. O espirito é apenas é o que deve ser: equilíbrio e resistência. Foi aí que ocorreu-me a ideia de que o espirito é o emplastro da alma e, logo, também do corpo.
Sim, e é tão fácil vibrar o espirito a fim de sarar o corpo: pensamento positivo e dança… Meu espirito é bailarino. Vem comigo corpo, apoie-se nos meus ombros, vou colocar uma valsa e bailemos,  porque um dia nunca dorme e o espíritos também não. 
(Crônica de Clara Dawn, publicada originalmente com o título “Um dia nunca morre”no jornal Diário da Manhã – DM Revista – em Goiânia – Goiás em 16 de março de 2015).
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Guarda-chuvas musicais

Diga-me a verdade. Mas diga devagarinho, pois a verdade deve ofuscar aos poucos para não cegar-me num repente: e cega, juro, não saberia mais cantar. Ah, o canto, essa coisa que de manhã vem, acariciando-me as bochechas ao ponto de elas despirem os meus dentes num riso quase puro. Puro, não fossem os pecados cometidos, no leito, com o homem amado. Pecado? Sei que não é, digo só pra fazer firula para a minha Pequena que pensa que mãe não faz “essas coisas”. 

Então, estou um pouco pronta: pode “verdadear” o assunto. Será que depois de ouvir a verdade terei apetite para o desjejum? Pode dizê-la após o pão torradinho com queijo e mel?   É que hoje o dia está tão nublado e você sabe que não fico bem em dias taciturnos. Acho que não deve ser muito legal ficar cega num dia taciturno. Melhor se a cegueira surgir quando o sol estiver amornando as águas da nascente do Rio Corumbá, lá pelas bandas da Serra dos Pireneus. Que bela lembrança eu teria da última contemplação terrena, você não acha?

Sim. O Rio Corumbá, lembro-me agora de que, às vezes, é brabo e encardido. Coitado. Não se pode julgá-lo jamais, há tantas pedras em seu caminho. Substituíram a bonita ponte de madeira por uma de concreto e ferro: coisa feia. Tem razão de o rio ficar com aquela cara de quem sente dor nos sisos. É que o concreto é gélido, indiferente, rijo demais... Concreto lembra-me a verdade e daí sei que ela precisa ser dita e... Mas como eu dizia, o Rio Corumbá não é mesmo uma graça? Ele não se parece com um cavalo? Ohhh!, eu gosto tanto de cavalos – não os domesticados que abaixam a cabeça para que seu dono lhe coloque cabresto –, gosto dos selvagens – coisa mais linda que Deus criou –, os cavalos.

Eu queria ser bonita como um cavalo selvagem: será que cavalo fica cego quando escuta a verdade? E o Rio Corumbá é brabo porque é cego de raiva? É nada, o Corumbá é forte como a morte. Sua brabeza é só pra impor respeito: trem lindo de Goiás... não digo? Então!?

Eita que eu nem comi as torradas, espera mais um pouco. Café ou suco? Sei, duas gotas de Sacarose. Isso um dia vai matar a gente – ai!, que eu disse uma verdade – tudo bem – deve existir um céu para os desprezíveis – para os malévolos – para os “antidivindades” – para os cruéis – para monstros monstruosos que ousam dizer verdades na mesa do café da manhã.

Eu não quero ir pra esse céu. Já pensou numa tristeza dessas? O céu dos que só dizem a verdade... Nem morta vou pra lá. Assim, esqueça que eu disse que a Sacarose vai nos matar. Como poderia? Ela é tão docinha. Talvez exista um céu para os oblíquos e é pra ele que eu vou, porque habito nas utopias e faço das nuvenzinhas sonâmbulas meu manto...

 Mas, você escutou o que eu acabei de dizer? Você não gostaria de ir para o céu dos verdadeiros, gostaria? Já imaginou você, ali, ao lado dos verdadeiros,  antipáticos e cruéis de todos os tempos?  Que sina... não?

Ora, que até já perdi a vontade de morder gostoso nessa torradinha crocante. Também não gosto de mel, prefiro rúcula com azeite, limão e muito sal. Sei, sei... açúcar & sal = morte lenta. E lá vem você com mais verdades.

Por falar em verdade. Verdade seja dita: o pôr-do-sol na nascente do Rio Corumbá é esplêndido. Sem se preocupar com açúcar, sal, etcétera... Só a belezura do rio e o chiar do sol quentinho acasalando com a Serra: essa afeição energética só poderia mesmo desaguar um monte de versos no rio Paranaíba. Depois de uma tarde inteira no exercício da contemplação, qualquer verdade poderá ser dita e se tão dura for, há de causar uma cegueira benevolente: escuridão bonita como a noite cortinando o dia na expectativa de um novo alvorecer...

Sim. Diga-me a verdade. Porque hoje amanheci em paz com a natureza bravia  dos  meus cabelos e uma mulher em paz com os seus cabelos enfrenta tudo. Tudo? Até a chuva? E o que são as tempestades para quem tem guarda-chuvas musicais?   

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 23/02/2015)


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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Dor de amar a vida

No instante em que fora espancado, estava distraído. Tem essa mania de estar sempre pensando em outra coisa – “tudo” é sempre outra coisa –, segredo para não sentir dor-de-viver. Mas enquanto sua face girava de um lado para o outro – tal qual uma biruta no frenesi do vento –, ele pensava mesmo era no som das bofetadas...
Um som que o ensurdecia, deveras, devido ao toque violento próximo aos tímpanos. Um silvo longo e finíssimo zunia como uma cigarra em seus ouvidos, e ele pensava, reflexivo como um Buda – seria aquele o som triunfal da morte? Estaria agora mais perto, enfim, de um deus?
Deuses. Passou a vida sem acreditar neles e por que acreditaria encontrar-se com um, agora, ali? Talvez tenha sido por causa da sinfonia que laureou a sua cabeça num zunido quase insuportável.
Ah, aquele zunido! Aquele maldito zunido, era algo de que ele queria libertar-se com o único intuito de ouvir as batidas descompassadas do seu coração... Aquele, sim, era um som bonito de se ouvir – sorriu –, podia vislumbrar o modo como o seu coração se agitava dentro do peito. Maravilhoso: cada artéria, cada contração, cada pulso minuciosamente orquestrado de modo superlativo... Mas era cômico... Tão cômico, meu Deus.
Caído, sentia uma dor lancinante a lhe comprimir o peito e pôde ouvir o barulho do sangue na fronte, correndo com muita pressa para levar ao cérebro a informação de que a carne estava sendo subjugada. Pode-se ouvir – sim, nesse instante –, pode-se ouvir coisas: vá devagar, não suba as escadas correndo... degrau após degrau... não corra. Não corra.
Mas o que estava correndo ali era o sangue, e a passos largos, no afã de conter o medo.  Na verdade, ele não sentia medo, não sentia nem mesmo a dor... Sentia a vibração do som, a melodia do instante, o balanço trépido dos músculos, o sussurro das gentes, o choque hipovolêmico e, enfim, o silêncio absoluto. Uma paz, também, absoluta. Uma paz jamais sentida. Uma alegria d’alma capaz de fazê-lo flutuar sobre os demais, apesar do peso que lhe cobria os membros... O peso era cheiroso – lembrava as primeiras chuvas do ano, que somente chegam bem depois daquele cheiro – o cheiro de terra molhada.
Olhou para cima para contemplar de quem eram as lamentosas vozes que o aturdiam e até nesse momento se viu distraído: um pássaro diminuto daqueles chamados de “Fim-fim” – cor azul-petróleo e o peito amarelo-ouro e com aqueles seus tímidos pezinhos a ciscar a terra em busca de um suculento verme... encontrou muitos, e os devorou como num passe de mágica  – depois, voou lindamente.   
Magnífico! Sorriu, e no entorpecimento da fadiga, deixou-se levitar – estava cansado: cansado o corpo, cansado o coração, cansado o espírito – olhou para o céu – o céu estava tão longe. O céu é muito longe para se alcançar degrau-por-degrau... Longe demais... Cansado. Tão cansado que a ânsia pela morte lhe transbordou o pensamento em versos: quero, oh, Deus!, uma existência breve/ como a de um pássaro/ uma linda plumagem e um canto maravilhoso em louvor à vida/ vida-breve em voos perto do céu/ e, depois, Fim-Fim.


O poeta escreveu essas palavras na lápide da memória e adormeceu sem ao menos inculcar que estava enterrado. Dias depois o Fim-fim voltou para comer os vermes gordos que sobrepujavam a sepultura... Dias depois o poeta não sabendo que jazia morto - abolava na mente a ideia de que a vida-é-coisa-fabulosa.

Clara Dawn é escritora: romancista, contista, cronista do Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia  e Editora Cultural da União Brasileira de Escritores de Goiás. www.claradawn.com
(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás - em 03/10/2014)
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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Espírito Pacífico

Um ano depois da morte do meu filho, eu busco por aprendizados. Dizem que o sofrimento nos faz evoluir e embora eu esteja possuída por uma profunda misericórdia, penso que não evoluí de modo satisfatório, regredi: existiam coisas boas em mim que agora não consigo mais alcançar. Paciência  com as pessoas era uma delas. É que não sou capaz de ouvi-las ou enxergá-las e isso ocorre nos segundos que antecedem uma forte pressão intracraniana, e passo a distinguir o quadro como se tudo em volta estive debaixo de um espelho d’água. Será que tudo em minha volta está submerso e opaco ou será que sou eu que, ausente da realidade, permito-me ser tragada por esse remanso que de manhã vem, encharca a minha visão e ao longo do dia transforma-me num espírito Pacífico?

Contudo, esse mesmo oceano traciona-me às obrigações para com os outros, para com a vida na Terra, para com as coisas ditas vitais. Estou melancólica, eu sei, perdoe-me. E acredite, eu tenho sido forte e posso me vangloriar de atravessar os últimos 3 anos, desde a doença do filho ao luto, sem antidepressivos;  de levantar todos os dias e preparar o desjejum  para o amado e minha Pequena; de correr no Parque Areião e de estar mergulhada num projeto universal de prevenção ao uso de drogas; de ter a capacidade cognitiva de criar um novo romance e ainda pensar dialeticamente para o registro de minhas crônicas... 

Essa sou eu [seguindo em frente]  evoluindo, enfim. Hoje, enquanto pensava sobre o que escrever, a menina que um dia eu fui veio conversar comigo. Disse-me palavras maduras demais e, se eu não soubesse que ela sempre esteve à frente do seu tempo, isso até me surpreenderia. Sentou-se ao meu lado: estava descalça, cabelos longos e despenteados com aquele repartido insensato. Usava o seu vestido azul com estampa de bolinhas e trazia na mão direita um caco de telha. Depois de perguntar-me, sem direito de resposta, se eu sabia o que ela pensava de mim, caminhou um pouco adiante e desenhou, no chão, um círculo. Nele escreveu a palavra “terra” e seguiu desenhando, colados uns aos outros: um quadrado; dois quadrados e assim sucessivamente até desenhar outro círculo onde escreveu a palavra “céu”. Do ponto em que estava atirou-me o caco de telha e gritou: “jogue o seu caquinho no primeiro quadro e vem. O jeito mais nobre de alcançar o céu é passando por todos esses degraus”.

Eu ainda divagava na visualização dessa lembrança quando decidi avançar mais um degrau: esvaziar as gavetas. Num baú guardei coisas que todavia não quero esquecer. Depois me vi no espelho para buscar o que ganhei com o luto: pude notar duas rugas precoces; pele e cabelo com pouco viço; pressão alta e uma diabetes emocional... Para as rugas precoces: creme anti-idade; para os cabelos: hidratação semanal; para controlar a pressão e a diabetes: alimentação balanceada e correr todos os dias......Tudo isso é fácil. Difícil é aceitar o "nunca mais"... Difícil é encarar que, desde agora, tenho que seguir até o fim dos meus dias sem a terna figura do meu primogênito. Difícil agora será, enfim, dizer 'adeus'. Sendo assim, digo  'até logo'.


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM - Revista - Goiânia - Goiás em 18 de agosto de 2014)
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Canções azules

Sob os cuidados da solidão, o disco girola. Há, na Terra, lugar mais seguro do que a “autossolidão”? Estou só.  “Autossó”, aqui e agora. Tamborilando teclas; brincando com esse neologismo que me renderá algum escárnio. É que não gosto de “solidão autoimposta”, na verdade eu gosto... Gosto da minha autossolidão, mas não gosto dessa solidão autoimposta sonoramente falando, embora a grafia seja até harmoniosa.

Harmoniosa mesmo é essa palavra: har – mo – ni – o – sa! Com exclamação para ficar preguiçosa e assim... Não gostei porque rimou e com isso perdeu a harmonia. Há na Terra coisa mais valiosa do que a harmonia?

Pobre disco que gira, gira, gira e gira no sentido horário, sabendo de antemão que chegará o momento de parar. Depois de tocar um repertório inteirinho com todas as suas letras ora dançantes, ora melancólicas, ora poéticas, ora ridículas, ora hora: hora de enfim... Há na Terra coisa mais triste do que “parar de tocar”?

Será que “parar” é mais triste para a vitrola ou para o vinil? E um tem sentido sem o outro? A completude de um ser nunca estará na solidão. Ainda que a criatura seja unimúltipla, ainda que queira, jamais será completa sendo uma. Olho para a desdita vitrola sob a maldição de ser apenas um adorno. Olho para o infeliz vinil, que sem a carícia da agulha, mantém, em silêncio, versos cantantes, e penso, há na Terra coisa mais insuportável do que a incompletude?  

Eu estou incompleta. Não completamente, eu juro. Há outros discos aqui, bem debaixo do meu nariz, que cantam melodias risonhas e compreensivas. Canções azules e cheirosas que inebriam a minha alma e tocam-na com a terna responsabilidade de manter-me na roda da vida. Há na Terra coisa mais importante do que a certeza de ser útil?

De repente eu não consigo mais conduzir este texto com o mesmo estado de espirito com que comecei... Enfado-me. Ergo o olhar para ver o quanto escrevi: se já está suficiente para preencher a minha coluna semanal e vejo que é necessário mais um pouco. O que é uma pena, pois eu já estou  com náuseas por causa destas palavras que não farão diferença alguma se publicadas ou esquecidas. Há na Terra coisa mais estúpida do que a vaidade?


Melhor é ouvir minhas canções azules vindas dessa Pequena criatura que agiganta a minha existência... Canta, minha Pequena, canta.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás  em 11 de agosto de 2014)
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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Felizes vinte anos, para sempre, meu filho!

Meu querido Arthur, esta é a primeira vez em que eu lhe escrevo, de um modo direto, desde que você partiu. É que está chegando o dia do seu aniversário, 26 de junho, e eu quero lhe prestar uma homenagem, como sempre o fiz desde que você nasceu. Mas este ano não será um café da manhã na cama repleto de guloseimas e um presente oxidável. 

Este ano não vou repetir os chavões de bençãos e orgulho; não vou chorar no seu abraço porque você estaria ficando mais velho e logo sairia de casa; não vou comprar-lhe um celular ‘irado’ ou qualquer outra parafernália eletrônica que lhe prenderia um pouco mais dentro de casa; não vamos passear pelas ruas de Goiânia, à toa, à toa, e depois sentarmos num lugar qualquer para rir de quem vive à toa pela cidade...

Este ano não vamos assistir filmes a noite inteira e largar, no chão da sala, a caixa de pizza;  também não  haverá sermões intermináveis, na hora do almoço, sobre compromisso social, honra, bom exemplo, futuro, sexo, drogas e blá, blá, blá... 

Não. Este ano não há uma única coisa que eu possa lhe ensinar, porque desta vez a aprendiz sou eu. Benevolência. Benevolência foi o que você me ensinou. Uma benevolência tamanha que se transborda de mim e, só por isso,  hoje eu vou chorar. Não é de tristeza, meu filho, é de benevolência...

A sua indelével bondade para com o grande mal que lhe aconteceu. Inesquecível: i – nes – que – cí – vel. Inesquecível o seu olhar  terno diante de tanta, tanta, tanta dor: resignado... longânimo. Jamais esquecerei de toda a benevolência expressa em seu olhar, no último dia em que nos vimos, quando você, com suas asas de anjo, me ergueu do chão num último abraço. Ao me lembrar disso tenho vontade de outra vez abraçar você e pedir que fique um pouco mais, porque no dia 26 de junho de 1993, ao nascer você, nascia eu. 

Sabe, meu filho: meu melhor amigo, meu parceiro de gargalhadas, meu primogênito;  este ano eu só quero agradecer. Agradecer a Deus por ter escolhido a mim para ser sua mãe e permitir que você vivesse vinte anos ao meu lado. Agradecer  pelo privilégio de ter convivido com você todos os dias; por você dividir comigo os seus sonhos; os seus poemas; os seus sorrisos; a primeira batida do seu coração, o primeiro soluço, a primeira refeição, a sua infância; a sua primeira palavra; o primeiro dente a nascer e o primeiro a cair; a construção da sua primeira pipa; a primeira pedalada de bicicleta; a primeira fase de Super Mário World; a primeira vitória no Karatê; o primeiro beijo, o primeiro 10 com estrelinhas e a primeira nota vermelha...

Obrigada pela grande lição de bondade para com os erros do outro; bondade para com os próprios erros, pois viver é, como nos ensinou Freud, um processo mental muito doloroso e é preciso ter compreensão e magnitude para com aqueles que se refugiam em ilusões. Porque conviver é mais difícil do que viver... é mais difícil lidar com vida do que com a morte. Então, é com benevolência que eu perdoo você. Perdoa-me, com benevolência também, e felizes 20 anos, para sempre, meu filho.

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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Pensamento engarrafado

Quando a minha voz se faz ouvir além das minhas próprias divagações... é pensamento desengarrafado feito Prosecco em festa de formatura. Mas o que eu tenho aqui comigo é um pensamento engarrafado do tipo vinho caro, daqueles que a gente só divide com pessoa muito agradável.


Vou desengarrafar o meu pensamento sobre aquele telhado de amianto que não estava lá essas coisas: muitas goteiras e dois parafusos soltos. Eu pedira ao meu pai para consertar, mas a labirintite não o permitiu. Quando ventava forte, era possível ver o telhado se separar da vigota. Mas as crianças não se importavam com isso – corriam pra lá e pra cá numa perseguição infinda. Infinda, mas só até o bolo de cenoura com calda de chocolate quente ser posto sobre a mesa.


Sempre que chovia, era preciso espalhar panelas sob as goteiras. Havia mais goteiras do que panelas naquela casa. Mas o cenário não incomodava nem um pouco as crianças. Quantos barquinhos de papel cabiam no copo do liquidificador? Agora me lembro: apenas um: o Titanic.

O quintal ficava alagado todas as vezes... e todas as vezes a água, por baixo das portas, invadia a sala e a cozinha. Por causa disso, o meu avô fez uma pinguela de tábua e a colocou em cima de meia dúzia de tijolos – da porta da sala até o portão – ‘uma beleza de pinguela’. Quem dizia isso eram as crianças indo-e-vindo-sem-parar – sem parar até os tijolos se transformarem em cacos.

Quando a chuva cessava, a lida na casa era farta. Aguaceiro para enxugar e o piso para desencardir. Coisa difícil era remover da cerâmica o aro enferrujado de um desenho caprichoso do botijão de gás. Difícil mesmo era ter que explicar para a Pequena como aquela mancha apareceu ali se o botijão não é de tinta.

Mas a chuva não durava para sempre e em tardes de primavera o jardim ficava repleto de flores-de-cardeal. Minha avó plantara só para eles, mas os cardeais jamais pousaram ali. Não importava, havia tantos beija-flores e tantas borboletas que os cardeais não faziam falta alguma. Não importava, pois a coisa mais bonita do mundo – a pipa – pairava sobre as flores, os pássaros, as borboletas e ainda tinha um menino segurando-a por uma linha.

O menino e a menina adoravam as pipas mais do que adoravam o jardim, os pássaros e as borboletas. E quem não gostava nada disso era a minha avó – que precisava reanimar as plantinhas a cada tombo de menino sobre o jardim.  O que a avó gostava era de reunir a molecada na varanda para comer pipoca temperada com “Sazón”. Depois, enquanto o dia se demorava mais um pouco, jogávamos peteca: as crianças, as mães, os amigos e os avós também... Eram risos de todas as idades e cumprimentos.
À noite, deitados no chão da sala, quase sempre nós fazíamos uma coisa ou outra: assistir filmes, ler histórias, ouvir músicas, contar piadas... e o mais divertido: brincávamos de “Vítima, Detetive e Assassino” com os avós. Quando o vovô tirava o papel de assassino, ele se esquecia de que devia ser discreto e matava todos de uma vez só com uma espingarda-braço...

Assim, eu desengarrafo o pensamento de um tempo em que nos faltavam o conforto de tantas coisas. Faltava-nos quase tudo; e, nesse quase, jamais faltou a alegria de viver.

(Publicada no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás em 08 de agosto de 2013).
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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Simplesmente, adeus

Onde o fim se esconde, há um lugar diminuto e belo: ali a gente pode ouvir o chiado do sol quando ele mergulha no mar. É no afã parturiente dos momentos ruins que os aromas celestiais se revelam  transfigurados das lembranças de bons dias... Eu tenho contemplado todas as coisas tão distantes... Num repente todos os caminhos, até mesmo uma senda, parecem-me longínquos demais. Foram os lugares que se afastaram ou foi o meu jeito de olhar que, de perspectiva, diminuí?

Voar até a lua não é difícil. Difícil, mesmo, é percorrer essas intermináveis estradas interiores. Mas não é o eixo longitudinal que determina o afastamento das coisas, tampouco é o silêncio da boca – é o estado d’alma.  Porque para permanecer não precisa ficar perto, contudo é mensurável que esteja dentro.

Eu não gosto de ‘ficar’ – prefiro ir... Não temo mudanças – sou passageira aqui e, por isso, evito deixar marcas onde piso, pois quando a porta se fecha atrás de mim – ‘ficar’ é verbo inconjugável, ainda que permanecer não seja. Porque o amor e o encantamento por todas as coisas têm o poder de prolongar as distâncias, e nesse caminhar não há pressa. Simplesmente porque ‘ficar’ não é o mais importante, uma vez que se permanece. A satisfação está no ir, no voo... Um voo eterno, com ou sem destino, mas sem longas paradas...

Eu gosto desse chegar que não chega nunca, dessa distância que se faz perto quando há paixão e depois se esfarrapa em desculpas tantas. Porque é a distância das estrelas que faz com elas se revelem belas e luzidias... Uma estrela não pode ao menos ser contemplada – porque uma estrela nunca fica –, apenas permanece na luz do passado. Se há estrelas brilhando atualmente, só saberemos, dizem, daqui a uns cinquenta anos.

É verdade que o estado metamórfico das existências é algo que me fascina. Fascinam-me essas breves distâncias entre o nascer e o morrer.  Mas o que me consterna diante disso é que essa breve distância  caminha sempre de mãos dadas com profundos sentimentos de solidão. Oh, Cristo! Por quê? Meu eu poeta me diz que ainda que o corpo seja a casa do espírito, o espírito nunca se encontra em casa... Porque casa não é lar – e a gente nem sempre vive onde mora – e o espírito tem um lar e dele sente saudade. O lar do espírito é logo ali, onde a gente pode ouvir o chiado do sol quando ele mergulha no mar.

O homem tem receio, não da distância das coisas, mas dos terríveis hiatos que descalcificam o caminho que ele escolheu para seguir. Hiatos interrogatórios que, se não estão no percurso, estão correndo atrás de si. Há uma maneira risonha de se distanciar dessas coisas que correm atrás da gente – deixando-as onde estão – atrás.  Mas o encargo real não é livrar-se das que correm atrás,  é ter que se distanciar daquelas que correm dentro de nós para lá e para cá, em promíscua insalubridade: adoecendo a mente e oxidando o corpo. As distâncias em si não são ruins. Ruim é quando as distâncias estão perto demais.

Eu gosto de observar a vida com as minhas distâncias, como aquele que vai ao teatro para vislumbrar a todos no palco, e ele, plateia/só aplaude freneticamente o cenário, a peça, o contexto, o texto, o figurino, enfim - o desembrulhar das gentes. Porque se tenho que impor presença, isso já é distância que me vence. Meu espírito, coisa tola - começa a ficar cansado quando pensa que é preciso ter uma cor/berrante para estar no desenho da vida – eu sou toda ausência-de-cor- uma colcha de retalhos incolores – uma bolha de sabão que reflete a luz de um arco-íris preto e branco - assim permaneço distante para que a minha existência se desfaça num adeus.

(Publicado no jornal Diário de Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiânia em 10 de junho de 2013).





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