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terça-feira, 19 de agosto de 2014

Espírito Pacífico

Um ano depois da morte do meu filho, eu busco por aprendizados. Dizem que o sofrimento nos faz evoluir e embora eu esteja possuída por uma profunda misericórdia, penso que não evoluí de modo satisfatório, regredi: existiam coisas boas em mim que agora não consigo mais alcançar. Paciência  com as pessoas era uma delas. É que não sou capaz de ouvi-las ou enxergá-las e isso ocorre nos segundos que antecedem uma forte pressão intracraniana, e passo a distinguir o quadro como se tudo em volta estive debaixo de um espelho d’água. Será que tudo em minha volta está submerso e opaco ou será que sou eu que, ausente da realidade, permito-me ser tragada por esse remanso que de manhã vem, encharca a minha visão e ao longo do dia transforma-me num espírito Pacífico?

Contudo, esse mesmo oceano traciona-me às obrigações para com os outros, para com a vida na Terra, para com as coisas ditas vitais. Estou melancólica, eu sei, perdoe-me. E acredite, eu tenho sido forte e posso me vangloriar de atravessar os últimos 3 anos, desde a doença do filho ao luto, sem antidepressivos;  de levantar todos os dias e preparar o desjejum  para o amado e minha Pequena; de correr no Parque Areião e de estar mergulhada num projeto universal de prevenção ao uso de drogas; de ter a capacidade cognitiva de criar um novo romance e ainda pensar dialeticamente para o registro de minhas crônicas... 

Essa sou eu [seguindo em frente]  evoluindo, enfim. Hoje, enquanto pensava sobre o que escrever, a menina que um dia eu fui veio conversar comigo. Disse-me palavras maduras demais e, se eu não soubesse que ela sempre esteve à frente do seu tempo, isso até me surpreenderia. Sentou-se ao meu lado: estava descalça, cabelos longos e despenteados com aquele repartido insensato. Usava o seu vestido azul com estampa de bolinhas e trazia na mão direita um caco de telha. Depois de perguntar-me, sem direito de resposta, se eu sabia o que ela pensava de mim, caminhou um pouco adiante e desenhou, no chão, um círculo. Nele escreveu a palavra “terra” e seguiu desenhando, colados uns aos outros: um quadrado; dois quadrados e assim sucessivamente até desenhar outro círculo onde escreveu a palavra “céu”. Do ponto em que estava atirou-me o caco de telha e gritou: “jogue o seu caquinho no primeiro quadro e vem. O jeito mais nobre de alcançar o céu é passando por todos esses degraus”.

Eu ainda divagava na visualização dessa lembrança quando decidi avançar mais um degrau: esvaziar as gavetas. Num baú guardei coisas que todavia não quero esquecer. Depois me vi no espelho para buscar o que ganhei com o luto: pude notar duas rugas precoces; pele e cabelo com pouco viço; pressão alta e uma diabetes emocional... Para as rugas precoces: creme anti-idade; para os cabelos: hidratação semanal; para controlar a pressão e a diabetes: alimentação balanceada e correr todos os dias......Tudo isso é fácil. Difícil é aceitar o "nunca mais"... Difícil é encarar que, desde agora, tenho que seguir até o fim dos meus dias sem a terna figura do meu primogênito. Difícil agora será, enfim, dizer 'adeus'. Sendo assim, digo  'até logo'.


(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM - Revista - Goiânia - Goiás em 18 de agosto de 2014)
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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Felizes vinte anos, para sempre, meu filho!

Meu querido Arthur, esta é a primeira vez em que eu lhe escrevo, de um modo direto, desde que você partiu. É que está chegando o dia do seu aniversário, 26 de junho, e eu quero lhe prestar uma homenagem, como sempre o fiz desde que você nasceu. Mas este ano não será um café da manhã na cama repleto de guloseimas e um presente oxidável. 

Este ano não vou repetir os chavões de bençãos e orgulho; não vou chorar no seu abraço porque você estaria ficando mais velho e logo sairia de casa; não vou comprar-lhe um celular ‘irado’ ou qualquer outra parafernália eletrônica que lhe prenderia um pouco mais dentro de casa; não vamos passear pelas ruas de Goiânia, à toa, à toa, e depois sentarmos num lugar qualquer para rir de quem vive à toa pela cidade...

Este ano não vamos assistir filmes a noite inteira e largar, no chão da sala, a caixa de pizza;  também não  haverá sermões intermináveis, na hora do almoço, sobre compromisso social, honra, bom exemplo, futuro, sexo, drogas e blá, blá, blá... 

Não. Este ano não há uma única coisa que eu possa lhe ensinar, porque desta vez a aprendiz sou eu. Benevolência. Benevolência foi o que você me ensinou. Uma benevolência tamanha que se transborda de mim e, só por isso,  hoje eu vou chorar. Não é de tristeza, meu filho, é de benevolência...

A sua indelével bondade para com o grande mal que lhe aconteceu. Inesquecível: i – nes – que – cí – vel. Inesquecível o seu olhar  terno diante de tanta, tanta, tanta dor: resignado... longânimo. Jamais esquecerei de toda a benevolência expressa em seu olhar, no último dia em que nos vimos, quando você, com suas asas de anjo, me ergueu do chão num último abraço. Ao me lembrar disso tenho vontade de outra vez abraçar você e pedir que fique um pouco mais, porque no dia 26 de junho de 1993, ao nascer você, nascia eu. 

Sabe, meu filho: meu melhor amigo, meu parceiro de gargalhadas, meu primogênito;  este ano eu só quero agradecer. Agradecer a Deus por ter escolhido a mim para ser sua mãe e permitir que você vivesse vinte anos ao meu lado. Agradecer  pelo privilégio de ter convivido com você todos os dias; por você dividir comigo os seus sonhos; os seus poemas; os seus sorrisos; a primeira batida do seu coração, o primeiro soluço, a primeira refeição, a sua infância; a sua primeira palavra; o primeiro dente a nascer e o primeiro a cair; a construção da sua primeira pipa; a primeira pedalada de bicicleta; a primeira fase de Super Mário World; a primeira vitória no Karatê; o primeiro beijo, o primeiro 10 com estrelinhas e a primeira nota vermelha...

Obrigada pela grande lição de bondade para com os erros do outro; bondade para com os próprios erros, pois viver é, como nos ensinou Freud, um processo mental muito doloroso e é preciso ter compreensão e magnitude para com aqueles que se refugiam em ilusões. Porque conviver é mais difícil do que viver... é mais difícil lidar com vida do que com a morte. Então, é com benevolência que eu perdoo você. Perdoa-me, com benevolência também, e felizes 20 anos, para sempre, meu filho.

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terça-feira, 10 de junho de 2014

D'clara

Não leia, nem republique qualquer coisa que eu tenha escrito antes de 17 de agosto de 2013: são divagações tolas de quem ainda não havia experimentado a dor.

Leia frases de Clara Dawn em  O pensador


...quero ser capim na beira da estrada... 
qualquer estrada serve - até mesmo uma senda triste...
desde que o vento passe por ela

e esvoeje os meus cabelos com as letras de um poema...


O olho do espelho

Ainda não sei qual é a expressão que me flerta 
quando miro minha face no espelho; 
desconheço no reflexo esse olho que me enxerga, 
que me escruta com a passiva ira dos tempos;
insolente na sombra dos rastros de um vinco. 
Com essa mão que explora traços invisíveis na deslembrança de um rosto infante. Chispas de fuligem me alcançam a mente? 
Ou são os meus cabelos que agora nascem prateados? 
Perdi a superfície vã das coisas simples na esteira da infância, 

ou em puberdade senil se encontra o olho branco desse espelho?


Metáfora da esperança  - por Clara Dawn

Ah, eu gosto tanto de gaveta emperrada...
Não importa quantas gavetas funcionais apareçam diante de mim,
Eu estarei sempre guardando os meus óculos naquela  velha gaveta emperrada.
E é verdade que eu não uso óculos,

Mas eu jamais deixarei de insistir com essa coisa má que me faz tão bem. 






Vermelho Silêncio - por Clara Dawn

No berço da noite
 Uma sombra cai num casebre da Terra.

Depois  de regurgitar  no chiqueiro
o vento serpenteia  debaixo da jaqueira

e no grato asilo da natureza
É de afã  que apodrecem os cheiros.

O pálido cetim da tez menina
fecha lânguidos olhos num pesadelo

e túmidos suspiros arquejam do seio infante:
estos de um sol que nunca veio.

Na noite, a cantiga dos tambores de vodu.
Perto, no cinéreo vapor, a noite desbota
num verso incerto de um céu sem deus
e  a menina desmaia sob as notas do sino do inferno.

Em penumbra surge de um dorso pardacento
o sexo flácido revelado pela luz de uma lamparina.
Dedos longos de um diabo sagaz rasgam o véu púrpuro
e o lençol do leito infante agora é rubro

A menina grita!
E late o parco cão que vela o casebre.
O vento transpira o odor da lamparina a querosene.
Os tambores do vodu emudecem.
O cão reza um terço com as patas na cabeça.
É vermelho o silêncio da Terra.



Eminência

Chega. Nada mais anseio da dúvida
nada mais sublimo na dor, fim
minha essência transborda de palavras

meu espírito se tornou leve
e canta para acalmar o meu coração
é que nele habita um passarinho
um que tem o TEU nome
nome bonito que sussurro todas as manhãs

Oh, passarinho, declina-te para ouvir-me
mas ELE está à volta dessas flores todas
e não deseja atinar incoerências vindas de baixo
está com o Pai num lugar azul diferente
e não pode tampouco auscultar eminências


coisa mais tola  tenho rezado
 um só mover de Tua cabeça em direção ao choro meu
mas para quê
se desesperos me despertarão
no  azul desse Teu céu
casa de passarinhos multicores

eu perdi a fé e tenho medo de jamais revê-la
é que lamento tanto a violência do afastamento
estou cansada da sombra desse imenso pé de sei lá o quê
e enfadada do cão que abana o rabo
porque pensa que estou, para ele, sorrindo

estou farta desse infindável caminho
que se ramifica em divagações tantas
exausta de tudo
de tudo mesmo, oh, Deus, exceto de Ti

espero que isso seja sinal de fé.


Minha Pequena


...pequenina mulher,

ainda é só uma menina,

uma parede a se erguer frágil 

[tudo invenção] 

invenção de sua personalidade

para esconder suas muralhas...

menina, menina, menina...

[não me pertences, deveras]

mas posso reproduzir a impressão que tuas mãos me causam:
se disser que nunca vi em mão alguma dedos tão
nitidamente dóceis - diria a verdade, eu.

Minha pequena,
se possível fosse dividir-me em partes mínimas e
cada partícula pudesse ser julgada em separado,
certamente cada pedacinho da minha existência seria
uma nota musical para harmonizar a tua vida, 
para encher de riso a tua boca...

Ah, o teu riso!
Teu riso é tão puro que não me lembro se de alguma brisa 
senti tamanho favor.


(Minha Pequena - por Clara Dawn – dedicado à Thálitha Miranda) 


Elegia ao filho morto

Descobri que o silêncio é palpável:
tem cheiro, textura e gosto.
Descobri-o nessas coisas que pertenceram a você
e que agora você pertence à elas.
Descobri que esse silêncio é visível e belo...
[como uma borboleta sem asas]

****

Mas, e  esse  sorriso que ainda tens na face? É de troça?
Terá sido a transposição de teu ultimo reflexo?
Não alcanço no silêncio desse riso - o pensamento - o que tiveste no instante em que vozes imaginárias ou só por ti audíveis,
atinaram-se a mostrar-te uma paz em forma de branco lençol...
Não concebo que o teu sorriso, vedado por um nó na garganta, tenha se transformado em epitáfio.

****
O tempo passa, mas não passa tempo algum.
E é nesse tempo que passa correndo sem sair do espaço
que tento ajuntar letras ambíguas
sobre toda essa benevolência expressa [como sempre] em seu olhar;
sobre suas asas de anjo que [no último abraço] ergueram-me do chão...
Espero que um dia você possa perdoar-me por não conseguir entender
Sua ânsia de pássaro em livrar-se [ cedo demais] da gaiola da vida.
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

“As pessoas deviam morrer com todas as suas coisas” *


Aqui ajuntando as coisas do meu filho para a doação.  Abrindo gavetas e ‘caixas íntimas’... senti uma  estranha sensação ao encontrar em seus guardados todas as homenagens que, em vida, organizei para ele: desde pequeno, sempre permitia a presença de seus amigos para celebrarmos com ele surpresas em aniversários, torneios de futebol em videogame e assistirmos filmes... (nos finais de semana a casa se enchia de pré-adolescentes).

Há tantas cartas escritas para ele... há um rolo de cartas de mais de 3 metros que a Pequena e eu fizemos, colhendo cartas de parentes e amigos para quando ele voltasse de seu batismo na igreja evangélica. Outras tantas numa caixa enfeitada com recortes de revistas com alguns de seus personagens favoritos (para entregar a ele quando estava no “Encontro Videira” – em fevereiro deste ano)...  e há mais de 150 mensagens que colhi de seus amigos  no Facebook, para que ele lesse enquanto estivesse na clínica.

Até um livro eu escrevi para ele -  com o nome dele (“Artur, o grande urso” – livro que escrevi quando ele estava com oito anos, mas que somente este ano foi publicado  – Que coisa!). No aniversário dele, em junho deste ano (52 dias antes dele partir), também fiz homenagens e poemas em posts no Face.  Familiares disseram-me que as minhas homenagens a ele em vida faziam parecer que ele estava morto...

Mas desde que ele nasceu, eu senti [senti simplesmente] que dedicaria muitos momentos da minha vida para fazê-lo sentir-se amado... Mas...!? Mas ele morreu “naquela noite” de 17 de agosto de 2013, às 21h21min. Queria poder dizer que ele teve uma recuperação milagrosa. Mas não teve –  desistiu de respirar - desistiu. Queria poder dizer que a sua doença e morte tiveram um lado positivo e com a sua partida a Pequena e eu podemos, enfim, tocar nossas vidas sem as agruras de seus surtos psicóticos.

Queria poder dizer que a vida dele teve um sentido ímpar para a história da humanidade; que, focados no exemplo de sua doença e morte, muitos jovens reformularam seu conceito sobre o uso da maconha; que uma escola ou uma rua foi batizada com o nome dele; ou que uma Lei de Incentivo ao Adicto em Recuperação foi criada por causa dele...

No entanto, isso não aconteceu. Sou sabedora de que a morte do meu filho é “banal”; ele foi apenas mais um que recorreu à “automorte” em busca de paz, neste mundo onde cerca de 27 milhões de pessoas - o que representa 0,6% da população mundial – são usuárias de drogas. O Relatório Mundial Sobre Drogas da ONU 2012 diz que praticamente uma em cada 100 mortes entre adultos de 15 a 64 anos é atribuída ao uso de drogas lícitas e ilícitas...

Nunca entenderei por que ele tinha que morrer e a Pequena e eu vivermos. Certamente não há explicação para isso. A morte é única exatidão da vida. Talvez por isso seja tão terrível. A exatidão é algo sem perspectiva alguma – um quadrado mágico – onde todas as somas dão sempre o mesmo resultado. E mesmo sabendo disso, a gente teima em empreender a contagem das razões inúmeras vezes - Inúmeras vezes – inutilmente - até a exaustão.

Enquanto ele esteve com sua mente enferma, cheguei a pensar que eu tinha vindo a esta vida apenas para cuidar dele... e, por fim, não consegui. Talvez um dia eu concorde que não era para ser como eu pensei. Hoje o que importa, é a certeza de que tive um filho e pude conviver com ele por 20 anos. Um filho encantador, gentil, inteligente e prestativo que, somente na fase de adicção ativa e por causa dela, foi rude e indiferente com aqueles que o amava e ainda amam.

... olho para aquela fotografia ali... Aquela que lhe mantém engessado o sorriso na face e  dela surge o homem cuja história, a partir de então, assim descrevo:  aos 23 anos, já concluído o curso de arquitetura, ele passou no concurso da Força Aérea Brasileira e tornou-se um importante arquiteto da Aeronáutica; aos 30 anos recebeu uma condecoração por seus relevantes serviços voluntários na reconstrução de cidades destruídas por catástrofes naturais; aos 50 anos viu ao redor de sua mesa, a mulher amada, seus filhos e seus netos; aos 65 se aposentou, não porque se sentia velho, mas porque desejava ter mais tempo para dedicar-se a sua ânsia de escrever poemas; aos 85 anos, numa bela manhã primaveril, deu o seu último suspiro enquanto colhia tulipas róseas para ornar de risos a face de sua amada... 

* "As pessoas deviam morrer com todas as suas coisas.” García Márquez. Imagem: O Quarto - Vicente Van Gogh.

(Publicado em 03 de outubro de 2013 - Leia outros textos sobre o mesmo assunto: Só por hoje  -Foge, Tatua, foge - Efeito Colateral  - visite o blog: www.maconhafazmalsim.blogspot.com e curta a página no Facebook - Obrigada.).


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Efeito Colateral

A mulher chorando de Pablo Picasso - 1937
Tenho me repetido tanto nos últimos meses que a minha literatura está mais para “A Lagoa Azul” nas Sessões da Tarde da Rede Globo. Acho desrespeitoso para com os meus reincidentes leitores que vão às bancas comprar o jornal todas as segundas-feiras, (dizem), só para ler minhas “garatujas”.

Mas perdoem-me o autoplágio semanal. É que tenho me sentido um tanto quanto enjoada: basta olhar para folha branca que logo um gosto acre me vem à boca. Não é o ato em si que me causa esse mal-estar quase insuportável. É o luto – efeito colateral – co/lateral... Que coisa!

Não há um único raciocínio cognitivo que eu consiga desenvolver sem que eu sinta uma forte “tensão intracraniana” – como se os pensamentos comprimissem o meu cérebro de um modo dolorosamente enfadonho.

Não quero escrever prosa alguma. Não há em mim vontade de inventar histórias ou narrar metaforicamente o meu conceito dialético sobre a existência do parafuso... Não quero. Quero gritar todos os palavrões e todas as asneiras que a minha pudica educação permitir. Posso?  Quero, ao menos uma vez, brigar com Deus e dizer que eu pensei ter ouvido um riso irônico quando pedi para Ele realizar o sonho do meu filho de receber o Prêmio Pritzker de Arquitetura. Posso? Isso a minha educação não permitiria mesmo. (Não farei nada disso. Meu grito é sob as águas do chuveiro porque elas levam as fraquezas do meu espírito para o esgoto).

Mas talvez eu tente ‘poemizar’ a minha vida, pois é mais fácil transitar pela realidade mergulhada no lirismo do que simplesmente viver. É isso que eu tenho feito -  escrever uns versinhos para a fase de elegia ao filho morto:

Descobri que o silêncio é palpável
tem cheiro, textura e gosto.
Descobri-o nessas coisas que pertenceram a você
e que agora você pertence a elas.
Descobri que esse silêncio é visível e belo...
[como uma borboleta sem asas].

Mas, e esse sorriso que ainda tens na face? É de troça?
Terá sido a transposição de teu ultimo reflexo?
Não alcanço no silêncio desse riso - o pensamento –
o que tiveste no instante em que vozes imaginárias ou só por ti audíveis
atinaram-se a mostrar-te uma paz em forma de branco lençol...
Não concebo que o teu sorriso, vedado por um nó na garganta,
tenha se transformado em epitáfio.

O tempo passa, mas não passa tempo algum.
E é nesse tempo que passa correndo sem sair do espaço
que tento ajuntar letras ambíguas
sobre toda essa benevolência expressa [como sempre] em seu olhar;
sobre suas asas de anjo que [no último abraço] ergueram-me do chão...
Espero que um dia você possa perdoar-me por não conseguir entender

Sua ânsia de pássaro em livrar-se [cedo demais] da gaiola da vida.
(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM-Revista em 30 de setembro de 2013)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Só por hoje


Apesar de, no momento, eu estar pairando no limbo das incertezas e da dor. Meu sentimento é de uma profunda misericórdia. Uma misericórdia tão grande que penso que transbordo e preciso abraçar a muitos através desse ‘dom’ que Deus me deu de rabiscar palavrinhas. Hoje, estimado leitor, perdoe-me, mas a  minha misericórdia não se vestirá de uma lírica prosa.  Pois, daqui de onde pairo, somente enxergo Arthur, o meu menino/pipa.

Falarei de morte, mas prometo que é SÓ POR HOJE. Não gosto de suscitar a piedade, mesmo porque não sou  piedosa o bastante para merecê-la.   Tão somente porque o meu filho jamais sentiu vergonha de revelar-se como um adicto com transtorno mental – falarei do porquê de sua morte.

Arthur venceu a febre reumática – a cada vinte dias ele tomava injeções de Benzetacil e isso foi por cinco anos. No estômago, uma bactéria rara o fazia vomitar sempre – venceu-a. Antes do reumatismo participou de vários campeonatos nacionais e regionais de Karaté, venceu todos eles. Participou de um campeonato nacional de física e foi o primeiro colocado. Venceu o flagelo do vestibular e conquistou uma vaga de Arquitetura na Universidade Estadual de Goiás.  Até o ensino médio, Arthur era  considerado o melhor aluno do colégio - em todos os colégios por onde passou. Ele era, e gostava de ser, vencedor em tudo.  Mas,  pergunta que bombardeia-me de todos os lados está focada em POR QUE ele não venceu o  campeonato contra às drogas?

As respostas são insignificantes, pois não justificam a terrível perda. Arthur não era apenas esse vencedor descrito acima: era um jovem com todas às chances de viver ‘ricamente’ dentro de suas alternativas de vitória de vida e optou por alternativas nem um pouco inocentes. Ignorante sim. Ignorante de sua condição de DEPENDENTE QUÍMICO e da pré-disposição genética para a esquizofrenia.

Um jovem curioso que gostava de “curtir” a vida, como ele mesmo dizia “ como se estivesse na hora do recreio”. Maldita Cannabis Sativa. Maldita maconha.   – “Não faz mal, mãe. Pelo contrário é remédio” – dizia ele. E assim seguiu sua paixão por essa droga de um modo doentio.  Em cinco anos de uso diariamente. Exames comprovaram que ele não era usuário de outras drogas. Era um ‘maconheiro’  com orgulho em ser. Orgulho até que ela o nocauteou fatalmente.

Um surto-psicótico em dezembro de 2012: vozes, vultos, alucinações... Ele parou de dormir, pois o tormento lhe possuía sem intervalos. Saiu do surto com trinta dias e voltou para casa: tratamento com antipsicóticos e acompanhamento terapêutico – tudo certo e a doença controlada por cinco meses e vinte e sete dias. Mas o menino/pipa decidiu abusar da incerteza e se pôs a prova:  “usei maconha no meu aniversário, era uma forma de comemorar. Foi para eu ter certeza se voltaria a ouvir às vozes e ficaria surtado e aconteceu como a minha psiquiatra disse – ‘se você voltar a fumar maconha, vai surtar’  - dito e feito”(trecho descrito em seu caderno de anotações. Ele foi internado outra vez. A medicação fora dobrada e redobrada, modificada... mas não foi suficientes para livrá-lo do tormento e  no dia 17 de agosto depois de passar 45 dias ouvindo vozes, ele desistiu da maior de todas as suas lutas. Ele não queria morrer, apenas não queria mais viver – é diferente).


Ele deixou uma BANDEIRA – MACONHA FAZ MAL SIM -  e junto com a bandeira, deixou um rascunho narrando a sua experiência com o uso dessa droga; o surto psicótico e a sua boa vontade em que a sua vida sirva de exemplo a muitos.  Ergo essa bandeira e aceno-a com a certeza de que NÃO ESTAREI SOZINHA,  Arthur e tantos outros estarão comigo. E é com as palavras do menino/pipa que desejo terminar esse texto: “ Não escondo de ninguém a minha doença. Todos os meus familiares e amigos sabem que sou adicto e frequento o NA e que estou em recuperação de um transtorno mental. Eu me sinto confortável para dizer disso. Comecei a ser honesto com a minha recuperação quando aceitei a minha doença e descobri que SÓ POR HOJE posso ficar livre dela”. 

(Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista em 26 de agosto de 2013. Leia também: Foge, Tatua, foge   - texto intuitivo)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Foge, Tatua, foge...


Tudo certo para o desjejum. Um pouco mais tarde, às nove horas: leite achocolatado com um suculento sanduíche de atum. Tinha imaginado que, depois do café, poderia levá-lo para cortar os cabelos, fazer a barba e, quem sabe, lhe compraria um par de  tênis e uma bonita camisa com novos tons de xadrez. A que ele tem usado, feito de tecido tipo flanela, já está bastante surrada.

Mas ele não apareceu. Na caneca, sobre o leite, boiava uma nata escura e asquerosa; o cheiro, outrora salivante de atum defumado, agora putrefez o ar oprimido da casa – ambiente pequeno demais para guarnecer a espera – e olha insistentemente pela porta, como se esse gesto fosse capaz de fazê-lo surgir na esquina: andando um pouco encurvado por causa do peso da mochila que carrega nas costas desde sempre; o jeans encardido e justo demais nas panturrilhas, a velha camisa xadrez, os tênis cansados de carregar o mesmo corpo. O olhar cabisbaixo mirando as passadas das longas pernas – olha para a porta e se depara com a imagem de sua mãe, como se ela fosse parte da porta... A porta que nunca se fecha.

Não. Ele não está na esquina. Outra vez, não veio. Não adianta subjugar a porta. Ele não virá. Não virá mesmo que lhe compre as estrelas, mesmo que lhe cubra de mimos, mesmo que arranque a porta com os seus portais, mesmo que arranque os lábios para escancarar um riso afortunado... Mesmo assim, ele não virá. Porque na sua perspectiva de vida emboscou-se nas alegrias de um ‘não o sei o que’ maior do que todas as insígnias da educação maternal.

Emboscou-se. Sim, com a ciência de quem acredita saber exatamente o que faz da vida.  Com o conceito daqueles que se firmam na ideia de que possuem a capacidade de entrar e sair de qualquer tipo de situação - por mais viciosa que a situação seja. Armou para si uma rede, sabendo de antemão  que a rede que armava  é do tipo que possui nós indesatáveis.

Quando era criança, não tinha um nome – era Filho, o amado filho. Com o tempo chamava a si mesmo de Tatua, às vezes de Filho, às vezes não se chamava - era riso gargalhante como se dissesse “meu nome é felicidade”. Isso foi há muito tempo, enquanto ele ainda fugia de casa para “torar e aparar pipas”. Num tempo em que ele queria voar como se um pássaro fosse. Um pássaro cuja plumagem fora arqueada com varetinhas de piaçaba e cobertas com coloridos papeis de seda. Sua cauda enorme e esvoaçante rasgaria o céu e desenharia nas nuvens as letras do seu nome... Em sua imaginação seria perseguido por uma águia cruel e ele poderia ouvir os gritos alucinantes: “Fuja, Tatua, fuja...”.

Ele não fugiria, enfrentaria a águia e ela não seria forte o bastante para lhe impedir de alcançar o seu sonho. O sonho a que sua mente o capacitou – o sonho de voar alto – tão alto que nem mesmo uma águia seria capaz de alcançar, tão alto que faria voos rasantes nas planícies celestiais e nada, nem ninguém o demoveria de sua obstinação - a obstinação de escrever o seu nome nas alturas.

Mas o tempo levou o menino, levou a pipa, levou o riso debochado de criança feliz, levou o olhar chamuscado de brilho pelas grandezas das pequenas e rotineiras conquistas, levou o desiderato da boa convivência, cobriu as varetinhas de piaçaba com um tom cinza e sua enorme e esvoaçante cauda está repleta de nós. Emboscado, entorpecido... perdido, perdido.. Perdido: pássaro nobre voando com abutres e se alimentando de morte.

Não é mais um menino, não é mais um pássaro/pipa... é uma parede branca com as marcas encardidas no lugar que antes era de um quadro. Um quadro orquestrado de uma imagem sonora e vivaz. Um quadro repleto de informações inteligíveis, um quadro reflexivo – um quadro que sua mãe amava ver na parede... Mas a parede está vazia – e a única revelação que ela expressa é o pânico de alguém que descobriu que há águias que não se pode vencer sozinho. Assim, outra vez ouve os mesmos gritos: “Foge, Tatua, foge”.


(Quando enviei essa crônica para o jornal, no dia 14 de agosto, eu não poderia imaginar que o o meu filho (o Tatua) estava com a sua mala pronta. E no dia 17 de agosto, depois de passar 45 dias em Franco Surto Psicótico ele se matou. Por coincidência ou não, Arthur nasceu no dia 26 de junho - Dia Internacional de Combate ao Uso de Drogas. Foi instituído pela ONU em 1987, seis anos depois o meu Arthur nasceu. Tinha a vida normal de jovem de classe média com todas as oportunidades de ser bem sucedido e seria, caso não fosse sua paixão por Cannabis Sativa (a maconha). Usou-a durante cinco anos e por ser pré-disposto geneticamente a esquizofrenia, surtou por duas vezes em seis meses. Do primeiro surto ficou livre com trinta dias e ficou "limpo" por cinco meses e 27 dias. Mas no dia do seu aniversário quis desafiar a doença e recaiu. Bastou apenas um cigarro de maconha para que ele entrasse em surto outra vez e deste surto não se livrou nem mesmo com o mais forte dos antipsicóticos e por fim, não suportando as terríveis vozes que o atormentavam dia e noite, instigando-o ao suicídio, assim o fez. Ele deixou o rascunho de um livro onde narra toda a sua experiencia com as drogas e o transtorno mental e uma bandeira: MACONHA FAZ MAL SIM.  Ele jamais sentiu vergonha em dizer que era um adicto com transtorno mental. Frequentava os Narcóticos Anônimos e se orgulhava publicamente em sua página no Facebook em viver limpo, SÓ POR HOJE.  - Publicado no jornal Diário da Manhã - DMRevista - Goiânia - Goiás, em 26 de novembro de 2012 - Republicado em 19 de agosto de 2013 - LEIA TAMBÉM: SÓ POR HOJE - texto elucidativo sobre esses acontecimentos).