Diga-me a verdade. Mas diga devagarinho, pois a verdade deve
ofuscar aos poucos para não cegar-me num repente: e cega, juro, não saberia
mais cantar. Ah, o canto, essa coisa que de manhã vem, acariciando-me as bochechas
ao ponto de elas despirem os meus dentes num riso quase puro. Puro, não fossem
os pecados cometidos, no leito, com o homem amado. Pecado? Sei que não é, digo
só pra fazer firula para a minha Pequena que pensa que mãe não faz “essas
coisas”.
Então, estou um pouco pronta: pode “verdadear” o assunto.
Será que depois de ouvir a verdade terei apetite para o desjejum? Pode dizê-la
após o pão torradinho com queijo e mel?
É que hoje o dia está tão nublado e você sabe que não fico bem em dias
taciturnos. Acho que não deve ser muito legal ficar cega num dia taciturno.
Melhor se a cegueira surgir quando o sol estiver amornando as águas da nascente
do Rio Corumbá, lá pelas bandas da Serra dos Pireneus. Que bela lembrança eu
teria da última contemplação terrena, você não acha?
Sim. O Rio Corumbá, lembro-me agora de que, às vezes, é
brabo e encardido. Coitado. Não se pode julgá-lo jamais, há tantas pedras em
seu caminho. Substituíram a bonita ponte de madeira por uma de concreto e ferro:
coisa feia. Tem razão de o rio ficar com aquela cara de quem sente dor nos
sisos. É que o concreto é gélido, indiferente, rijo demais... Concreto
lembra-me a verdade e daí sei que ela precisa ser dita e... Mas como eu dizia,
o Rio Corumbá não é mesmo uma graça? Ele não se parece com um cavalo? Ohhh!, eu
gosto tanto de cavalos – não os domesticados que abaixam a cabeça para que seu
dono lhe coloque cabresto –, gosto dos selvagens – coisa mais linda que Deus
criou –, os cavalos.
Eu queria ser bonita como um cavalo selvagem: será que
cavalo fica cego quando escuta a verdade? E o Rio Corumbá é brabo porque é cego
de raiva? É nada, o Corumbá é forte como a morte. Sua brabeza é só pra impor
respeito: trem lindo de Goiás... não digo? Então!?
Eita que eu nem comi as torradas, espera mais um pouco. Café
ou suco? Sei, duas gotas de Sacarose. Isso um dia vai matar a gente – ai!, que
eu disse uma verdade – tudo bem – deve existir um céu para os desprezíveis –
para os malévolos – para os “antidivindades” – para os cruéis – para monstros
monstruosos que ousam dizer verdades na mesa do café da manhã.
Eu não quero ir pra esse céu. Já pensou numa tristeza
dessas? O céu dos que só dizem a verdade... Nem morta vou pra lá. Assim,
esqueça que eu disse que a Sacarose vai nos matar. Como poderia? Ela é tão
docinha. Talvez exista um céu para os oblíquos e é pra ele que eu vou, porque
habito nas utopias e faço das nuvenzinhas sonâmbulas meu manto...
Mas, você escutou o
que eu acabei de dizer? Você não gostaria de ir para o céu dos verdadeiros,
gostaria? Já imaginou você, ali, ao lado dos verdadeiros, antipáticos e cruéis de todos os tempos? Que sina... não?
Ora, que até já perdi a vontade de morder gostoso nessa
torradinha crocante. Também não gosto de mel, prefiro rúcula com azeite, limão
e muito sal. Sei, sei... açúcar & sal = morte lenta. E lá vem você com mais
verdades.
Por falar em verdade. Verdade seja dita: o pôr-do-sol na
nascente do Rio Corumbá é esplêndido. Sem se preocupar com açúcar, sal,
etcétera... Só a belezura do rio e o chiar do sol quentinho acasalando com a
Serra: essa afeição energética só poderia mesmo desaguar um monte de versos no
rio Paranaíba. Depois de uma tarde inteira no exercício da contemplação,
qualquer verdade poderá ser dita e se tão dura for, há de causar uma cegueira
benevolente: escuridão bonita como a noite cortinando o dia na expectativa de
um novo alvorecer...
Sim. Diga-me a verdade. Porque hoje amanheci em paz com a
natureza bravia dos meus cabelos e uma mulher em paz com os seus
cabelos enfrenta tudo. Tudo? Até a chuva? E o que são as tempestades para quem
tem guarda-chuvas musicais?
(Publicada no jornal Diário da Manhã - DM Revista - Goiânia - Goiás em 23/02/2015)
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